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Textos e Fotos

Por A. Capibaribe Neto

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Lembranças de Futuros Passados
por A. Capibaribe Neto

 

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Sonhos são livres e sem os quais a vida, agitada ou mansa, da maioria, perde a graça, a esperança. Sonhos alimentam a fantasia, a esperança e mesmo a ilusão. Conheci uma mulher bonita, cujos injustos machucados da vida a deixaram descrente e avessa aos assuntos relacionados a sonhos. Pelo que escutei, seus sonhos sumiram faz tempo. Não sonha com ninguém, com um abraço, um beijo, um carinho, um cuidado. Isso não impede que sonhem com ela, mesmo que feche suas pesadas portas aos sonhadores em acalentar seu rosto triste, seu olhar triste, sua tristeza particular.
Sonhar não impõe a sua realização implícita. Sonhar faz bem a alma e acalma, leva o pensamento a divagar, ganhar alturas ou lugares alhures ou mais além ou bem depois. 

 

Lá atrás, bem no começo, quando corria afoito pelas calçadas da minha infância modesta, tinha meus sonhos limitados pelas fronteiras da realidade do pequeno mundo onde vivia. Bastava-me uma história ouvida para formar uma imagem e me transportar para dentro dela. Se o circo chegava e desfilava pela avenida, eu me via no trapézio, perto dos tigres, leões e palhaço. Sonhei em ser trapezista, domador, segurar as mãos da moça bonita – malabarista, ser o amor da vida dela. 

 

Se via um filme de cowboy, sonhava com um cavalo branco, como o do Durango Kid ou do Zorro. Sonhei em ser Tarzan, viver na selva, dar aqueles gritos, pular de cipó em cipó, rir da Cheetah, viver em paz na casa da árvore.

 Aos poucos, sem me dar conta, fui sonhando com as coisas que via pelas ruas mais distantes que ia percorrendo, até que vi o mar pela primeira vez. E vi o horizonte, a jangada branca que sumia de manhã cedo e no fim da tarde ia surgindo do linha do mesmo horizonte, trazendo peixes, trazendo histórias. 

 

Tanta coisa foi se juntando nas minhas lembranças e fui colecionando esperanças feitas de sonhos. “Um dia…!” E sonhava. Quando chegasse o futuro, depois que o Papai Noel perdesse a graça, depois do primeiro beijo que deixou meu rosto quente, eu imaginei meu futuro. Sonhei com ele.

 

 Sonhei atravessar o mar, ir até onde nasciam as ondas, do outro lado do mundo onde nem sabia que era nessas lonjuras todas onde o Sol nascia e vinha se arrastando e puxando as noites que anoiteciam sem pressa, passando pelo lusco-fusco até se espreguiçarem nas madrugadas que anunciavam um novo dia. 

Ah, que saudades daqueles futuros que chegaram e passei por eles sem me aperceber, sem poder fazer cobranças ou refazer os sonhos, mudar as lembranças, as fantasias…!

 

 Acostumei-me com as tristezas que me esperavam no futuro que chegou e depois passou, como tudo passa, fica lá atrás, onde não tem mais jeito, não tem mais volta. 

Ah, que saudade daqueles futuros inocentes, quase ingênuos, daquelas vires e cheiros, das vontades, dos primeiros desejos e as saudades deles saciados!

 

 Minhas lembranças daqueles futuros são parecidas com as realidades dos amigos que chegaram até aqui, onde cheguei, onde penso neles e relembro passagens nas fotografias que pararam esse tempo, como um marco, um ponto onde plantei meus sonhos e alguns vi realizados. Outros, esqueci e nem lembrei mais, mas que saudade desses futuros que se perderam no tempo! Resta-me pouco tempo para plantar esses futuros, mas valeu a pena ter sonhado, fantasiado, imaginado, porque fui feliz até com o que não realizei.

 

 Não gostar de sonhos é um direito ou uma escolha triste daquela moça que conheci, não vejo culpa nisso, não aconselho a dar uma chance ao futuro, a um sorriso, ao abraço de um amigo, a um beijo, mesmo que seja só no rosto. 

Não consegui ser do circo, não conheci uma bailarina, não fui Tarzan nem Durango Kid. Não tive um cavalo branco de farta crina esvoaçante, mas sinto uma saudade imensa das lembranças daqueles futuros…!

SOFRER É PARA OS FORTES
por A. Capibaribe Neto

 

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Certas passagens de nossas vidas parecem vividas em um mundo em chamas onde nada, nem ninguém, podem nos salvar ou nos estender a mão. E não é por conta de dinheiro, mas pelo ar que falta ou se comprime no peito. A angústia! 

 

Nesses momentos, é estranho o desejo que pode impulsionar reações tolas, inimagináveis, como escancarar as janelas e portas para expor o mais recôndito do interior agoniado e carente. Armamos nossas próprias armadilhas e nos tornamos presas fáceis pela fragilidade da estima que míngua sem nos darmos conta.

 

A rendição quase incondicional do vexame a que nos entregamos leva a acreditar que a presença circunstante que apareceu pode cuidar, curar ou anestesiar a dor que supomos única  é insuportável. E nem é. 

 

Falar assim, desabafar assim remete ao ataque de vitimização que nos expõe ao ridículo emocional que nos permitimos — vai ver, conscientemente. Melhor seria, descobrimos depois, chorar sozinho, gritar, espernear, abafar no travesseiro, lamber as feridas no escuro e não mostrar as cicatrizes. Deixar que elas sumam sem que ninguém se dê conta. 

 

Essas passagens, esses momentos, fazem parte do pacote quando assumimos as aventuras que espreitam a cada curva das estradas que se mostram ao longo das escolhas que atraem, embriagam e fascinam. De repente, tudo não passou de uma ilusão, uma  quimera, fantasia impossível de se materializar. O preço dessas ilusões, desses sonhos, pode custar caro quando acordamos para a realidade do amanhecer, quando a luz invade o quarto e a cama está vazia e nem um bilhete de despedida foi deixado. 

 

É preciso coragem para encarar o espelho e o que ele diz na nossa cara: você perdeu. Aliás, nem ganhou. Foi só aquilo e foi passageiro. De pouco adianta prometer-se que não vai deixar que aconteça de novo. Como? Já aconteceu antes. Faz parte. Vazios pedem preenchimentos, outras cores, caras, perfumes, sonhos, tudo parecido, quase igual. Catar palavras, escolher as mais sinceras para reclamar, plantar raivas ou ódios tem pouca valia. As flores são feias, cheiram a arrependimento e não servem para colocar em jarro e esperar que murchem. O tempo não tem tempo para perdas de tempo inúteis. A fila anda, é vida que segue.

 

 Repetições precisam ser assumidas porque os vazios não podem permanecer sem formas para sempre. Cada outra metade joga seu jogo e as cartas marcadas não ligam se você joga honestamente. O coração não tem cara; só responde com apertos, soluços, vontade de correr, de sumir. “Que jogo perverso você jogou, puxa! Que azar o meu… Que coisa feia de fazer. Tomara que você receba o troco com a mesma altivez com que recebi essa paga. Nem sabia que estava devendo….” 

 

Ninguém deixa ninguém, essa é a verdade. As pessoas se abandonam, vão embora largando malas de dúvidas porta afora. O mundo sempre esteve em chamas… Eu sabia, sentia o calor, mas eram as chamas dos infernos diários que assumimos o risco de enfrentar. Não se trata de reprisar, choramingar, fazer drama, querer colo ou cama. Não, escrever faz bem. A gente escreve e descobre nas palavras retalhos de outras histórias e se acomoda dentro da mesmice da qual é difícil fugir, escapar, mas não é impossível. Essa é a alternativa do difícil. Sofrer por amor é para os fortes.

EM ALGUM LUGAR DO MUNDO

por A. Capibaribe Neto

 

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Milhões de coisas estão acontecendo em todo o mundo. Algumas são notícias. Outras, são inventadas para atender aos interesses de uns ou para prejudicar outros. Em algum lugar do mundo, existe um tolo pensando que é inteligente e um inteligente se fazendo de tolo para melhor passar. 

 

Existem pesquisas sobre quem já ganhou e na outra ponta, quem já perdeu, mas festeja andando de motocicleta. Existe uma Simone que não canta, mas conta em contos que um por cento pode se transformar como contam, em outros contos ou cantigas que pães foram  multiplicados mas já faltam à mesa dos pobres.

 

 Em algum lugar do mundo, existe um louco querendo explodir o mundo para depois semear o trigo na terra encharcada de sangue de inimigos e compatriotas. Em algum lugar do mundo, tem gente aplaudindo um Pabbbblo com “bês” a mais porque é chique, mas esse Pablo é cafona e é feio.

 

 Existe uma corte que é de morte, mas tem sorte porque come camarão, faz beicinho, bate o pezinho, e distribui horas - e não são extras, para fulano fazer isso, beltrano fazer aquilo é ai de quem não fizer. 

Em algum lugar do mundo, comunistas se banqueteiam e pregam ramadã todo dia para o gado que nem muçulmano é. 

Em algum lugar do mundo, um papa começou a desmoronar porque suas pernas estão mais fracas que as colunas de sua imensa casinha sagrada de onde ele faz pedidos que nunca são atendidos, abençoa multidões, beija criancinhas e começou a ficar senil. 

 

Em algum lugar do mundo, milionários ficam mais ricos e começam a gastar dinheiro por diversão, enquanto outros, nesses mesmo lugares, bajulam seus padrinhos e, esquálidos e mal nutridos, se banqueteiam com o pão que o diabo amassou recheados com mortadela. Do lado de fora, uns gritam “Fora Fulano”, “Fulano Livre”, mas mesmo livre  esse fulano não tem coragem de sair às ruas.

 

 Em algum lugar do mundo, os intransigentes ficam cada vez mais radicais e intolerantes. Em algum lugar desse mesmo mundo, uma corte inteira fica nua por conta de uma “pulseira” de pé que um falastrão disse que não usa e parece que não vai usar mesmo. Um João de Deus escolhe onde que vai pagar a pena, não morre porque não saberá como ressuscitar e acredita que não terá contas a prestar com o verdadeiro arquiteto desse mundo que não deu certo. 

 

Em muitos lugares do mundo, a gasolina sobe, o dólar faz bacanal todo dia, o Putin faz beicinho, manda soltar mais bombas, faz finta que vai destruir o mundo. Em algum lugar do mundo, uma rainha acordou com dor de barriga e não deu nem tempo de chegar ao banheiro do castelo; o Fortaleza deixou de ganhar, “influencers” influenciam pessoas a comprarem o que elas dizem para ganhar o que elas não precisam comprar. Em algum lugar do mundo, o Trump continua Trump, o Biden aparenta não saber mais quem ele é e quando fala parece que está rindo, mesmo falando de desgraça.

 

 Em algum lugar do mundo, eu vejo pela minha janela, que o número de carros diante da casa de farra da Senador Virgílio Távora está diminuindo, porque em algum lugar do mundo a mesmice começou a enjoar, a encher o saco. Em algum lugar do mundo começa a faltar inspiração para falar de amor, de estrelas que de há muito foram esquecidas.

Apenas uma vaga lembrança

por A. Capibaribe Neto

 

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Ainda tenho bem nítido na memória... 

 

 "Vê se pode chegar mais cedo..." Lembro que fui quase indiferente ao responder "ok". Havia saído depois do café, de cara amarrada pelo desentendimento, noite anterior, que se prolongou até os argumentos perderem a força; nem lembro a razão. Virei para um lado e resmunguei um "boa noite" entre os dentes. Abracei-me ao travesseiro e inventei um sono que custou a chegar, mesmo cobrindo os olhos com o lençol. 

 

Almocei sozinho em um restaurante. Lembrei que havia escrito, certa vez, que nada era mais triste que uma pessoa sentado a uma mesa almoçando ou bebendo sozinho. Eu era isso. Eu fui isso. Não há como sorrir e o único lugar para fixar o olhar é o prato ainda vazio, a taça ou um ponto imaginário qualquer sobre a toalha à procura de um pensamento, uma lembrança, uma desculpa, sei lá.


Quando cheguei, abri a porta sem fazer barulho... estava tudo escuro, mas uma luz suave vinha do quarto e trazia o som de uma música que sempre escutávamos bebericando uma taça de vinho insinuante: um adagio in G Minor, de Tomaso Albinoni.

 

 Meu coração serenou, devo ter sorrido com os  pensamentos bons. Ela estava sentada sobre a cama, passando um pente nos cabelos ainda molhados. Encostei-me na moldura da porta e fiquei ali, passando páginas imaginárias dos primeiros momentos depois da conquista, da aproximação, das confissões coincidentes dos apaixonados. Lembrei da timidez que reprimiu, por pouco tempo, um monte de vontades audaciosas antes do bote do primeiro beijo. Beijos assim são catalizadores que fazem explodir os portões que se escancaram para tudo que vem no pacote. Dali para um abraço, para o mergulho no pescoço, os sussurros, no calor crescente, era só um atimo de tempo.

 

Depois, nunca virou rotina, era sempre bom. Os diminutivos vieram lentamente e viraram hábito; "meu amorzinho, dá um beijinho, um abracinho, quero fazer amorzinho, ai, que delicinha...!" Tudo muito bom demais! E naquela noite, a arenga da noite anterior saiu pela porta de trás e até pareceu com a emoção do primeiro encontro. Voltei até à sala, catei duas taças no bar, abri uma garrafa de vinho e voltei para o quarto. A luz do abajur dourava-lhe a nudez descoberta pela toalha cúmplice que caíra sobre a cama. Pigarreei... - "Oi, chegou? Faz tempo que está aí? Não
vi você chegar..." Achei a mentirinha uma graça. Apenas ri. Enchi as taças. Brindamos cinicamente; eu ainda vestido e ela sentada com a toalha a servir como um pedestal perfumado.

 

Tim-tim, um olhar de baixo para cima, olhos pidões e com os lábios molhados pelo primeiro gole, disse: "dá um beijinho...!" e me puxou. Depois desse momento, os anos correram apressados.

 As promessas de "para sempre" foram atropeladas por surpresas, desgastes de muitas mesmices, crises, sem falar na falta de paciência para as TPM's miseráveis que a transformavam em fera de olhar fulminante que me apontavam para o sofá onde dormi muitas vezes, com a paciência por um triz.

 

 Lembro, com todos os sons alterados, de uma vez que sai batendo a porta e fui dormir num hotel para não procurar onde um homem guarda a sua TPM e revidar. Quando descobri a magia do chocolate, já foi bem depois e não estávamos mais juntos. O começo ficou muito lá atrás; o meio da história se perdeu no amontoado de tempo que nos engoliu e o fim, chegou depois. Tempo demais já passou...

 

A coleção de anos perdeu a graça, a solidão passou a ser a melhor companhia para escutar as lamentações, conviver com os arrependimentos mais sinceros e as saudades sem jeito de cura. Os muitos "para sempre" cederam lugar às realidades da vida, cheia de surpresas. Aos poucos, aquela noite da última nudez foi perdendo a nitidez porque a fila andou e a vida seguiu. Ficou tudo guardado com o maior respeito em alguma imagens coloridas já desbotando e alguns bilhetinhos apaixonados com a letrinha cheia de diminutivos de beijinhos, abracinhos, e outras coisinhas.

 

Pois bem, no meio dessa semana, fazendo a derradeira mala com muitos capítulos da minha vida, encontrei a foto que fiz naquela noite. Peguei-me quase em transe, procurando nitidez para o rosto dela, restos de perfume com o qual ela costumava se vestir para me esperar; fechei os olhos para imaginar a maciez da morenice e ainda encontrei alguns retalhos dos arrepios com o cheiro de Amarige; ou era Trusssardi? Aquelas imagens nítidas, de formas bem recortadas em todos os côncavos e convexos, os pelinhos da nuca, o pecado arfante do decote generoso, o tempo perverso se encarregou de borrar. Melhor assim do que sofrer com lembranças sem sentido e saudades que perderam a razão de tirar o sono. Aquela noite de boas vindas de volta eram agora apenas uma vaga lembrança...

 A Desculpa do Cisco

por A. Capibaribe Neto

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“Diamonds and Rust” é a música que Joan Baez escreveu sobre seu relacionamento com Bob Dylan.  Baez não era um grande compositora; ela era uma grande cantora, mas “Diamonds and Rust” foi uma exceção. É um conto tão pessoal com detalhes únicos que ajudam a dar vida à história com observações universais que solidificam a música como aplicável a qualquer relacionamento. 

 

Dez anos após a separação, Joan recebe um telefonema de Dylan.  É aleatório: do nada.  Isso traz uma enxurrada de pensamentos e emoções.  O que ela quer dizer com "Diamonds and Rust"?  Bem, algumas de suas memórias dele envelheceram como diamantes, algumas como ferrugem.  Sua descrição do ataque de seus sentimentos e sua lembrança de seu relacionamento são ótimas composições. Eles decidem se encontrar depois de todos esses anos.  A cena é descrita em uma das melhores pontes de todos os tempos: a princípio é tão mágica quanto os filmes.  Sua descrição é poética.  Todas as memórias amorosas passam por ela.

 

 Quem se dedica a catar palavras, arrumando-as com carinho, dando-lhes sentido, buscando as que venham da alma, do fundo do coração, transformando-as numa poesia, num canto, num conto; fantasiando, criando, inventando o que poderia ter sido e lamentando o que não foi, vira desafogo do peito, acaba com o engasgo, o soluço, é quase uma confissão ou isso mesmo, uma confissão de culpa pela bobagem que interrompeu a melodia do amor. 

 

A canção Diamonds and Rust é comprida e Joan se confessa, diz do jeito de ser de Bob Dylan, não esconde seu débito no desenlace e lá no fim, como que passa uma régua para fechar uma conta, Joan Baez encerra dizendo “eu já paguei por tudo…”. Toda culpa é ou deve ser dividida por dois; basta pedir meio perdão e esperar que a outra metade seja sensível e se chegue para acertar o saldo.

 

 É preciso se aprofundar na hermenêutica das declarações de amor para descobrir o significado nas nuances das palavras; Diamonds and Rust - Diamantes e Ferrugem significam exatamente isso: Diamantes são para sempre como deviam ser as promessas que muitos fazem nos “para sempre tua/teu”; que nada! Na maioria das vezes, essas palavras enferrujam e viram areia. O vento leva com facilidade e um simples grão pode chegar aos olhos, arrancar uma lágrima e fica a desculpa do choro como “foi um cisco…”. Cisco que nada!

 Tanto sofrimento por nada

por A. Capibaribe Neto

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Tenho aproveitado algumas noites insones, por conta da moda dos ruídos desrespeitosos que varam madrugadas impunes. Jovens que chamam a atenção de seus pares ou de mocinhas sem noção, com as descargas modificadas, potencializando o som que fabricantes tanto investiram para serem silenciosas. Os rapazes afoitos, fazendo de suas motocicletas um cartão de visita de suas masculinidades comprometidas, são uma versão mais pobre dos que podem fazer de seus carrões rebaixados, com escapamento também adulterados e arrancadas exibicionistas diante de bares e casas noturnas, tipo para mostrar “olha eu aqui!”. Ninguém diz nada, ninguém faz nada, as blitzes não se ligam ou ligam para esse desrespeito até diante de hospitais. 

 

No Rio, uma “autoridade de respeito”: a chefia do tráfico, foi enfática: proibiu esses incômodos, incluindo no pacote a exibição de motoqueiros que empinam suas máquinas pelas ruas. A farra ali acabou, porque ordem de traficante sabe se fazer respeitar. Infelizmente é assim. 

 

Esse tipo de conduta da juventude de periferia, que hoje se confunde com a juventude das Ferrari e Lamborghini e gosta de fazer barulho para se exibir tem a cumplicidade dos pais, convenhamos. Não temos a pretensão da caretice ou de limitar o direito de ninguém a se expressar. Idiotas e imbecis também têm direito, mas o direito de um acaba no direito do outro; o direito ao silêncio ou ao mínimo de decibéis desnecessários diante de suas casas onde dormem crianças, pessoas que trabalham no dia seguinte bem cedo, pessoas idosas com sono frágil e aqueles com suas comorbidades e mazelas da moda. Tempos estranhos!

 

As saias curtas (curto demais, não sou hipócrita), principalmente aquelas na altura do cinto, os biquinis incríveis que respeitam as novas leis (“minha bunda, meu corpo, meu biquini” - só não pode olhar, porque aí, é assédio; já perderam a graça, assim como a exibição das barrigas trincadas, os tanquinhos dos rapazes que escrevem “nadaver”, com a maior naturalidade. 

 

Sejamos honestos; as mocinhas (grande parte, não se ofendam as exceções), já fizeram de tudo para animar a rapaziada: muitas alardearam que não usam mais calcinha, aboliram o sutiã, aumentaram o decote, mas nada, o que excita os jovens de hoje, é o barulho. Muito barulho. Nada chama mais a atenção do que as arrancadas, as empinadas das motos, as camisetas coladas na pele e as conversas sobre física quântica que entabulam nos grupinhos só de “alfas”, pois bem! Inveja? Não, por caridade. O desrespeito merece respeito e ai de quem desrespeitar! 

 

O Brasil está sem tesão. Leia-se: sem ânimo para nada. Não existe mais homem, não existe mais mulher, existe o que se escolher ser quando for conveniente. Não existe mais esquerda, não existe mais direita. Agora, é o centrão, o umbigo, em torno do qual o Brasil gira na visão de muitos. Já não conheço o Lula, não conhecia o Bolsonaro. Tinha uma Playboy com a Thammy na página central, linda! Hoje, a Thammy não é mais a Thammy, mas continua sendo a Thammy e é pai. Qual o problema? Nenhum. Pode. Tanto pode que tem barba, tem direitos assegurados e é boa gente.

 

Estou fazendo um curso no Nepal para encarar com naturalidade o Pablo Vittar, não a produção que esconde o que ele não liga esconder. Meu problema é com a voz dele. Tem a Anitta, deixando rastros mundo afora com o que tem de mais valorizado, incluindo aí uma dolorosa tatuagem.  Hoje é muito normal, aceite-se. Meu saldo de futuro, não escondo, está ficando cada dia mais minguado. Quer ver? Ela cobra em dólar.

 

Enfim, eu pretendia ser eterno, para ver o que ainda tem por vir, fiz um curso, tomei remédios, mas não passei na prova, o processo continua sem dó. Queria deixar rastros para serem seguidos... Aloprada pretensão! Vai ficar nada! No máximo, fotografias desbotadas, textos ultrapassados, nem lápide. Escolhi retornar ao pó. Está escrito, tem valor legal. Jesus deve estar muito triste, decepcionado e quiçá arrependido, por ter padecido tanto na cruz por tudo isso que nunca imaginou.

 Fotografias na Festa da Chuva

por A. Capibaribe Neto

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Já conheço o que significa o aviso do vento que, do nada, entra pela janela. Olho pra fora e o céu está entre cinza claro e chumbo. “Vai chover pesado…!” – digo aos meu botões. Fico esperando.

 

As previsões do tempo são muito críveis nesses tempos de tecnologia. Muito difícil falhar. E fico-me ali, atrás da vidraça olhando a cortina d’água que chia sobre a cobertura de alumínio da loja de pneus. Logo, a chuva mostra as gotas grossas que faz o asfalto virar riacho na avenida lá embaixo e as luzes dos faróis dos carros brincam de branco quando veem e vão embora no vermelho que se contorce atrás dos rastros espumantes das rodas.

 

Sinto vontade de sair pra rua, viver a emoção do cenário que tem se repetido dia após dia.  Venço a dúvida, visto um moletom, um casaco, pego um chapéu e a câmara fotográfica, desço à garagem e vou pra chuva. Sair debaixo de uma chuva forte assim para fotografar pode parecer loucura mesmo, mas é uma aventura gostosa, principalmente quando se está disposto a se molhar.

 

Segui pela avenida larga e fui até à Praça da Imprensa. O asfalto molhado, parecia um espelho d’água enrugado pelos pingos brincalhões que se exibiam para para as minha lentes. Estava molhado da cabeça aos pés. Os poucos circunstantes não entenderam a minha loucura fotografando debaixo de chuva. Nem liguei, eram as minhas imagens que importavam e me faziam feliz com as luzes da praça se exibindo sobre as folhas das árvores, em um balé sincronizado.

 

Abriguei-me na banca de revistas, em frente ao Mercadinho Japonês para limpar as lentes e foi ali que numa fração de segundo fiz a fotografia que me remeteu a uma lembrança, quando apertei o disparador para guardar a imagem da mulher, já curvada sobre o peso dos muitos anos que carregava sozinha.

 

No curto espaço de um tempo em que me virei para enxugar a lente, ela  sumiu como por encanto, mas pareceu-me deixar no ar a voz cuidadosa da minha mãe dizendo para o menino que fui um dia; “sai dessa chuva, menino…!” E foi o que fiz.

por A. Capibaribe Neto

Um olhar de atrevida inveja

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Eu pensei, imaginei, achei, verbos nesses pretéritos perfeitos, remetem a dúvidas que, quando dissipadas, levam a uma certa confissão de culpa silenciosa, mesmo quando conjugados em conjunto diante do que quer que seja. Pois bem...

 

Ambientes públicos são palcos, cenários ou passarelas por onde atuam, se apresentam e/ou desfilam pessoas as mais variadas. São destaques, chamam a atenção aquelas que se impõem pela apresentação dentro do figurino certo, beleza, elegância, postura e todo um contexto onde elas se inserem na aura perfumada de suas fragrâncias preferidas. Às vezes, é preciso explicar direitinho para fazer sentido.

 

A noite já havia começado e mal dera tempo de assimilar o ambiente novo. As primeiras taças já haviam sido sorvidas, quando ela chegou. Sempre existe uma “ela” que se destaca. Chegou, olhou em volta e ficou-se ali, parada no meio do salão até o garçom abordá-la perguntando o óbvio. Com a resposta, também óbvia, ele a conduziu a uma mesa, etc. e tal. Chamou a atenção, depois de todas as atenções, que ela em si chamou.

 

Fez-se estranhar o fato de que a mesa escolhida só tinha uma cadeira. Ora, a moça era especialmente linda, mas estava só. Chamá-la só de bonita seria sovinice com adjetivos superlativos. Vestido curto, na moda, curto como manda a moda em evidência, bem ali, no meio das coxas alvas encimando as pernas bem torneadas, que acabavam dentro de um par de sapatos de salto alto, feito pedestal para o destaque de todo o resto. A partir da cintura, contida em um cinto fino. Acima dele, como uma fronteira, para cima, um busto sem exagero, debruçado na janela de um decote onde o conteúdo rosado respirava sem pressa, num arfar contagiante. Colo impecável, sem joias ou bijuterias. Não carecia. Boca, lábios, nariz, olhos, cílios, sobrancelhas, tudo absolutamente perfeito.

 

Sentou-se, cruzou as pernas com elegância e permaneceu ali, bebendo um copo d’água. As primeiras impressões foram as de que estaria esperando uma companhia. Não recebeu chamada, não fez ligações nem consultou o aparelho chato. Não demonstrou ansiedade, nervosismo, nada. De volta à nossa vida, em volta da mesa, nós, mortais boquiabertos, retomamos a conversa sobre o novo vinho escolhido, admirando a cor rubi contra a luz. O buquê remetia a frutas com pitada de flores, madeira, sei lá. Ao fazê-lo passear sobre as papilas agora exigentes, permitia uma agradável sensação sem afetação. Não se tratava de um vinho exibicionista, mas agradava, inclusive pelo custo benefício. Bebericar algumas taças uma vez por semana fazia bem ao espirito, a alma e fazia-nos gargalhar sem alarde, sim, porque seletas companhias sempre descontraídas e divertidas, são o recreio noturno para as preocupações em meio às preocupações e a certeza do resto das poucas margens de tempo que sobravam para o grupo.

 

Aqui e ali, eu olhava com a devida discrição para a mesa da moça que continuava elegantemente solitária, mas mais linda ainda. Cheguei a comentar que nada é mais triste que alguém sentado a uma mesa de restaurante sozinho, mas a moça linda, era, até ali, uma incógnita na moldura de uma talvez espera. Notei que já se havia passado quase uma hora principalmente porque notei que o relógio já consumira quase uma hora e ela permanecia elegantemente diante de um copo com água. Era imperioso, dentro da minha expectativa, que ela estivesse esperando alguém. Ninguém entra em um restaurante como aquele, tão deslumbrantemente linda e elegante, para pedir um copo d´água. Quase deixando a curiosidade sobre a moça lindíssima de lado, mas solitária, ao pedirmos a conta, eis que senão quando, chega um descortês que a fizera esperar. Ninguém, em sã consciência, deixaria uma mulher tão lindissimamente bonita à espera, mesmo  por apenas absurdos minutos. Não imagino o que lhe tenha dito antes de arrancar dela o mais lindo dos sorrisos. Depois, beijou-a com discrição, afagou-lhe o rosto e ficaram os dois olhando um para o outro.

 

Levantamo-nos e seguimos em direção à saída. Ao passar pelo dois, olhei-a de relance e ela talvez não tenha notado a aura de inveja atrevida que me envolvia.

Fugas Impossíveis

por A. Capibaribe Neto

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Acredito não ser dificuldade apenas minha, pois já escutei coisa parecida numa conversa descontraída; a dificuldade de afastar um pensamento ou uma lembrança. 

 

De repente, no meio do nada, caminhando pela rua, num restaurante, num bar, onde for, um rosto que aquietou-se no passado ou que fez lembrar o verdadeiro, desabotoa o peito e abre a caixa onde escondemos o que restou de histórias que deixamos de fazer parte delas. Ou saímos por conveniência ou fomos deletados delas. Pode ser coisa repetitiva, mas a vida é cheia de replays, mesmo que em outros contextos. 

 

Somos a soma dos nossos sonhos, expectativas, erros, acertos e, o pior: detidos os arrependimentos. E falando neles, em alguns até conseguimos colocar um remendo e seguir em frente. “Vida que segue, porque a fila anda”. Precisa ser assim mesmo porque o tempo, feito a maré, não espera por ninguém, não tem jeito.

 

 Ficar roendo a corda ou amofinado –  sinônimo de amargurado, tristonho, não resolve ou muito menos cura. Aí, vem o acaso. O rosto da festa de um dia aparece sem precisão, sem convite e explode em cores vivas, em cheiros, em lugares que nem existem mais ou em um edredom que esteve guardado, num lençol  cúmplice. Você fecha os olhos, sacode a cabeça tenta apagar aquela verdadeira “cabeça d’água” descendo com violência paz abaixo. Se você está só no flagrante, ainda disfarça o engasgo, o soluço o ar apatetado, o bater no peito, a lividez instantânea do rosto, mas se uma nova realidade está ali, segurando a sua mão numa caminhada despretensiosa, é impossível esconder a mão que ficou gelada de repente.

 

 Viver é uma aventura cheia de surpresas, desde o primeiro momento, passando pelas primeiras paixões e emoções dos primeiros beijos, abraços e pelo resto dos scripts que o destino nos impõe representar. Nada é para sempre, mas é fácil acreditar, principalmente quando se é humano de primeira viagem.

 

 Já escrevi muitas vezes sobre as promessas de “para sempre tua” ou “teu para sempre”; muito filme já visto, reprise e não adianta reclamar. Se acabou, já era. A fila anda, digo outra vez e reforço,tanto numa direção como na outra. As filas são muitas e as opções, as mais variadas. O que incomoda são os contextos. Em toda separação tem o que não queria sair e o que não queria mais ficar. Cada cabeça é uma sentença e uma escolha. E aí, como estava dizendo, aquilo que já aconteceu e não pode mais deixar de ter sido e sumiu deixando mágoas ou malas de tristezas, foi adormecendo e aquietou-se, mas sem aviso, acorda tudo, feito uma topada ridícula e você fica refém do susto que vai custar a passar. Não se tem para onde fugir, não tem escapatória, são as chamadas fugas impossíveis, aquelas que nos são impostas pelas lembranças que fazem uma falta danada.

De repente, booooooommmmm!
por A. Capibaribe Neto

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Ainda em plena reverberação da onda de indignação com as falas malcheirosas do deputado Arthur do Val, o tal do “Mamãe, Falei…M…”, em plena guerra do Putin contra o resto do mundo através da Ucrânia, assistimos impávidos, ao vídeo exibido pelo presidente da Ucrânia para o Senado americano.

 

Os aplausos consistentes, as reações lacrimosas de alguns presentes ficaram de certo modo apenas nessa solidariedade. Poucas providências à altura das agressões foram tomadas. 

 

É bem verdade que, mesmo sendo um grupo forte (OTAN), partir para uns cascudos no dono da Rússia seria transformar a emenda muito pior que o soneto, como a zona de exclusão do espaço aéreo sobre a zona do conflito. Essa providência valeria para ingresso num cenário de medição de forças cataclísmicas. Seria o avião do país agressor e intransigente decolar para bombardear o resto do mundo e quando retornar não encontrar mais nenhum campo de pouso porque não encontraria mais o próprio país. Absurdo, para dizer o mínimo, imperdoável e inimaginável. 

 

O pior, nesse cenário difícil de conceber são as torcidas, especificamente as tupiniquins, as nossas. Escolhas, preferências, diversidade de gostos escolhas são direitos inalienáveis, não restam dúvidas, mas torcer pela vitória do criminoso, é meio muito. 

 

Nesse contexto, fica impossível passear pelos campo de aparente paz e tranquilidade as margens do lado de cá do Atlântico escrever sobre amenidades até mesmo as consequências de amores desfeitos e rituais de quem rói as cordas de uma separação difícil de digerir.

 

 Pessoas que podiam desfrutar de bons vinhos, champanhes ungidas, caviar, patê de foie gras e outros que tais, independentemente do preço da gasolina, do botijão de gás ou outras insignificâncias, voando em primeira classe, estão de castigo. Pode-se até aceitar sem muito choro, a perda de uma mala da Louis Vuitton ou Prada, mas ninguém temida de reserva para arriscar. 

 

Confesso que estava querendo repetir a incoerência das minhas duas viagens ao Afeganistão sozinho, sem o respaldo de nenhum jornal, mas quando vi as notícias sobre a morte de repórteres no cenário dessa guerra estúpida, a aforteza pediu licença e sossegou o facho, principalmente diante do radicalismo, intransigência brutal que prefere torcer pelo “criminoso de guerra”, segundo o “mocinho” Biden. Não, hoje não é dia de ser romântico ou engraçado,hoje é dia de medo. Muito medo. De repente, booommmmm!

Pronto, mamãe, falei... BESTEIRA!
por A. Capibaribe Neto

 

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Para: Elza Moledo de Souza

Prezada Senhora,

Ainda bem que, desde 2013, a senhora apartou-se do seu Manoel e os motivos não são da conta de ninguém. Mas, como não existem ex-mães, a senhora continuou sendo a mulher que trouxe ao mundo três filhos, dentre eles, Arthur.

Imagino a sua alegria ao amamentar o primogênito,  trocar-lhe as fraldas, velar cada noite nas menores febres e vê-lo crescer até ouvi-lo dizer “mamãe…!”. Com o passar do tempo, o menino começou a construir mais frases e até deve ter falado muitas coisas engraçadas, até que um dia…

 

É aqui, dona Elza, justo na semana quando se comemorou o Dia da Mulher, que, ao meu sentir, deve ser todo dia. Aquela que nasce mulher, será sempre mulher, embora devam-se-lhe assegurar todos os direitos de assimilar e assumir mudanças na sua essência e mesmo até de mudar seu desenho para o que mais lhe convenha, a partir de como se vê, como se sente e como quer ser tratada: com respeito e dignidade.

 

Retomado o rumo dessas mal traçadas linhas; além do Dia das Mães, que será comemorado mais à frente, a festa foi para a mulher, especificamente para ela: o Dia da Mulher!

 

Diz-se que os pais devem criar os filhos para o mundo e o mundo é uma imensa paleta de cores, cardápio de sabores e elenco de destinos. Seu filho Arthur, por exemplo, escolheu visitar a Ucrânia e foi visitá-la logo agora, no meio de uma guerra sem sentido (nenhuma guerra faz sentido, diga-se) e viu de perto a desgraceiras da destruição, da tristeza de milhares de pessoas abandonando seus lares, sob frio e debaixo de chuva e neve, fugindo de uma invasão bárbara, do barulho de sirenes avisando a chegada de bombas covardes, o matraquear de metralhas, explosão de mísseis.

 

Arthur esteve nesse cenário e lá, viu de perto crianças carregando seus medos abraçadas a ursinhos de pelúcia; viu idosos caminhando com dificuldade, arrastando suas comorbidades, viu muita tristeza, sofrimento estampado no rosto de todos, sem distinção. Arthur viu voluntários ajudando esses visitantes impostos a outras fronteiras pela necessidade de sobreviver e proteger seus entes queridos. Arthur viu gestos de tocante solidariedade de poloneses e voluntários solidários. No meio desses retirantes, viu mulheres jovens e bonitas, igualmente vítimas do terror e que também deixaram para trás seus namorados, noivos, maridos no palco da guerra pessoal de um déspota: Vladimir Vladimirovitch Putin! 

 

Dona Elza, Arthur, seu filho, viu tudo isso e depois voltou. Voltou e comentou o que viu numa síntese absurda e revoltante que chocou até mesmo seus “parças”, com essa frase machista: “as mulheres ucranianas são fáceis porque são pobres”.

 

Falou o Arthur Moledo do Vale, deputado estadual, conhecido por “MAMÃE FALEI… a coisa mais absurda que demonstra a falta de carater e humanidade. Foi condená-las ao campo de concentração da falta de vergonha, de caráter, pudor e um mínimo de humanidade.

 

Nenhuma mulher merece dar à luz a um ser humano e depois vê-lo transformado nessa escuridão de valores.

 

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Novo Círculo de Promessas

por A. Capibaribe Neto

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No auge das grandes paixões, quando tudo tem as cores que ficam mais bonitas, segundo as batidas de cada um dos corações cúmplices, é muito bom dizer, sem medir consequências, sem censura, correndo os perigos das queimações dos desejos intermináveis, as loucuras dentro das alcovas, permanentes ou circunstantes, aquilo que ditam os segundos, os minutos e as horas desses encontros: “eu te amo”; essa frase é forte, larga, profunda e assume-se, nesse momento, as responsabilidades desse ímpeto. Todos e tudo tem tudo para parecer verdadeiro, mas nem sempre é.

 

Remete-se a uma pretensão de eterno, mas nunca é. Aceita-se até como duradouro e muitos são, principalmente os mais antigos, quando as coisas e as relações eram mais simples. As exceções de alguns envolvimentos mais firmes transformavam cada dia desses presentes numa visão e esperança felicidade contínua. Descartar a convivência de uma vida inteira, cheia de histórias vividas ou imaginadas, dá um trabalho enorme e quando se pensa que tudo se transformou em fotos rasgadas ao meio, bilhetes e cartas apaixonadas em cinzas, encontrar, de repente, no fundo de uma gaveta que se esvazia, o retalho de um capítulo de um livro esgotado pelo desinteresse, pela importância que foi se perdendo aos poucos: um pedaço de papel com uma declaração, uma promessa.

 

Aí, numa fração de segundo, tudo volta no tempo e é possível ver o momento exato que deu origem à mensagem. Por um instante, perguntas silenciosas são feitas e jogadas no espaço generoso das suposições. E “se”? Pouca valia. O futuro chegou antes, veio depressa demais, a corda foi esticando para depois ser roída sem jeito. As promessas e esperanças foram crucificadas, as decepções escancaradas, as cobranças jogadas na cara sem piedade. 

 

Depois, quase sempre, a vergonha das culpas assumidas, fazem fechar a cara e a porta para a humildade.  A vida, infelizmente, para esses casos, é dinâmica e sem paciência, as emoções cínicas, volúveis, intempestivas, circunstantes, mas igualmente e infelizmente, passageiras. 

 

E aí? Nada de tudo aquilo era tão eterno assim. Agora, nesse novo presente magoado, ferido, aquelas mesmas declarações apaixonadas fazem as malas, mudam de endereço e ensaiam, com pitadas de despeito, novas paixões, um novo círculo de promessas de para sempre “teu/tua” com arremedos de eternidade.

 

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O CAMINHO DE VOLTA

por A. Capibaribe Neto

Ao longo da minha vida, desafiei muitas distâncias, fronteiras e lugares, não para exibicionismo ou para provar ou provocar simpatia. Escolhi lugares diferentes porque o comum nunca me atraiu. 

 

Escolhi Akureyri, por exemplo, que é uma cidade da Islândia com aproximadamente 17 mil habitantes e localiza-se ao norte do país, na margem do fiorde Eyjafjörður, na província de Norðurland eystra. É a quarta maior cidade do país, depois de Hafnarfjörður, Kópavogur e Reykjavík. Akureyri, fica às margens do Mar da Groenlândia e que, durante o inverno, época que fui, para o simples ato de atravessar uma avenida, deve-se usar um carro, tamanho é o frio potencializado pelos ventos polares. 

 

Lembro que me aventurei a caminhar pela avenida que margeia as águas gélidas da Marina e dos olhares curiosos para esse homem maluco a caminhar sem as devidas proteções com roupas adequadas, fotografando o lugar. 

 

Ora, quase nunca me preocupei com esses detalhes por onde andei. Meus olhos sempre se voltaram para a beleza desses lugares para onde dificilmente voltaria, mesmo em outras estações do ano mais simpáticas. Quem ouviu falar ou se programou para visitar Pyhä, um resort que fica acima do Círculo Polar Ártico, na Finlândia?

 

 Pois eu fui, num trem noturno de Helsinque até lá, sozinho e foi de lá que vi as cortinas de luz dançando no céu gelado de janeiro: as fantásticas luzes dançantes da Aurora Boreal! Quem já se atreveu a subir uma duna dourada, bordada pelos ventos mornos de um final de tarde no deserto do Saara e deixar rastros de uma aventura solitário, no Marrocos? Eu fui até lá, sozinho. No sopé dessa duna, ficou meu saudoso amigo Hélio Passos. Que visão, a de uma tempestade de areia percorrendo o horizonte distante do alto dessa mesma duna! 

 

Quem, já se sentou perto das águas modestas de um oásis, nesse mesmo deserto e viu uma noite fria, de céu estrelado ser a paisagem para o melhor som do silêncio? 

 

Escolhi esses caminhos e de lá meu espírito retornou feliz e depois, refez sua mochila e escolheu outros caminhos, outras paragens. Quando senti que havia feito minha última fotografia nesses lugares fiz o caminho de volta para casa. Nunca esses destinos e muitos outros mais, despertaram receio ou medo do que enfrentaria nesses lugares exóticos.

 Minha preferência era por descobrir o tamanho dos desafios ao invés do comodismo do arrependimento por não ter ido. Encontrei uma placa à entrada de uma cidade aqui perto: “se você quer brigar, procure outro lugar”; fiz meia volta e comecei meu caminho de volta… Certos lugares não são impossíveis, apenas muito difíceis. 

 

Duas pessoas olham através da mesma janela: uma pode estar contemplando as estrelas, a outra, o campo. Li
Sinônimo de intenções · 1 metas, propósitos, intuitos, intentos, desígnios, finalidades, objetivos, sonhos, escopos, miras, fitos, alvos, objetos, tenções ...

 

Propósito: 1 ideia, plano, fito, fim, finalidade, objetivo, pensamento, programa, projeto, propósito. Desejo: 2 vontade, desejo, querer, desígnio, disposição, intento, intuito, tenção.

 

Interpretação é um substantivo feminino que caracteriza a ação ou efeito que estabelece uma relação de percepção da mensagem que se quer transmitir, seja ela simultânea ou consecutiva, entre duas pessoas ou entidades. ... A palavra interpretação pode ser substituída por sinônimos que variam conforme a intenção do seu uso.

 

 

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O APESTATO DAS ATITUDES

por A. Capibaribe Neto

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Existem portas que só abrem pelo lado de dentro. Também como essas portas, deveriam ser as pessoas. As mudanças dessas, tirante as lições aprendidas e assimiladas é que deveriam embasar suas atitudes e comportamentos, a fim de que houvesse mais coerência e justiça nos seus julgares. Costumo dizer, e a maioria das pessoas se espanta, que ninguém faz o outro feliz. 

 

Que história é essa? “Fulano/a ME faz feliz” — como? Felicidade é um estado de espírito e o espírito de que se encontra alegre, satisfeito, é uma coisa pessoal. A fome, por exemplo, você sente, vem de dentro pra fora. Não sentimos fome com o estômago; quem cuida dessa sensação desconfortável é o apestato, o que os fisiologistas dizem ser como um termostato que regula uma fornalha, ou o apetite da mesma. Pois esse atestado é que diz: você está com fome! Ter o que comer ou poder comer bem é outra coisa. Ninguém faz você sentir fome. Aliás, existe a fome do desejo, uma fome hoje cada dia mais restrita e cheia de mimimis, sim, estamos falando dessa coisa pobre e deselegante do homem troglodita que, sem a menor classe, diz “eu comi” essa ou aquela, principalmente por que quem, na verdade, que come é a outra parte (aqui, valendo-me dos últimos refúgios sem censura).

 

 Retomando; ninguém faz o outro feliz, o correto, convenhamos, seria “sinto-me feliz na companhia de fulano/a”, sim porque o arrepio ou as vontades veem de dentro, embora fulanos e fulanos às vezes ou com alguma contumácia finjam despudoradamente essas vontades e principalmente o revirar dos olhos ou os gemidos — esses, por sinal, são os mais votados para o convencimento ou ufanismo da parte contrária. 

 

Assim, todos os sentimentos originam-se dentro cada um, nós, os indivíduos. Dentro de nós tecemos teias, armadilhas, safadezas, construímos mentiras, inventamos desculpas, arquitetamos safadezas e por favor, não achem ruim ou reclamem, é assim mesmo.

 

Quando o roteiro das nossas vontades, desejos e sonhos estão no ponto é que abrimos essa porta e expressamos o bom, o melhor, o ruim ou péssimo com as nossas atitudes. É tudo de dentro pra fora. Conter-se é a última barreira que pode refrear uma insensatez, com desferir um tapa, um golpe, acionar um gatilho, contar uma mentira deslavada ou demonstrar coragem e falar a verdade, sem medo das consequências ou efeitos colaterais. 

 

O abrir dessa porta determina o que vai sair de você, como a confissão espontânea de dizer ele, ela, isso ou aquilo me dá uma sensação enorme de felicidade. Um Rolex, um Piaget, Calatrava, Prada, Luís Vuiton, sanduíche de mortadela, trinta dinheiros, tudo isso pode levar uma pessoa a se sentir feliz.

 

 Sentir-se! Repetindo, tudo de dentro pra fora. Quando existe a pretensão do cidadão/cidadã achar que faz uma pessoa feliz, basta ele/ela darem as costas e a verdadeira felicidade aparece. Insistindo: é uma especie de atestado moral que detona certas vontades de comer, inclusive finos pratos ou uma buchada.

Um amor por toda a eternidade

por A. Capibaribe Neto

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Chamava-se Maria. Era o que se chamava de encarnação da bondade, pureza, beleza e leveza no ser, no estar, no ficar, que não podia muito, porque o mundo tInha-lhe olho grande por gente que não dava bola pra muita gente, justo por ser diferente, saber fazer suas escolhas. E que bom e que sortudo que fui o escolhido, mesmo sabendo que só podia prendê-la no espaço pequeno do meu abraço sempre por pouco tempo. Eu adorava Maria, não nego e ainda me pego saudoso do tempo dela e tanto é o respeito que lhe tenho que sempre a carregava no peito como a melhor lembrança.

 

Hoje, a saudade dela não é mais de curtir na janela nem de chorar no campo grande da felicidade, agora ausente e que não existe mais. Tudo na vida — a gente sabia e até discutia, no bom sentido, tem um começo, um meio e um fim. Tivemos tudo isso.

 

Do começo, confesso, não lembro como foi; o meio, esse durou muito, não sei quanto, não contei, mas senti cada momento que sempre parecia-nos uma eternidade, embora quando menos esperássemos, já era hora de ir embora, sem demora, porque cada um de nós tinha a sua história e nos encontramos na coincidência de arrependimentos gêmeos, que não tinham mais jeito e foi o jeito pagar pra ver até onde ia o risco por aquela vontade louca de escrever a nossa história com tudo que era bom pra valer a pena viver e com as tintas do coração. A gente ria do medo de cada um e mais ainda se arriscava porque era intenso.

 

Tínhamos já uma coleção de ontens e a cada presente onde nos ausentávamos das fugas das nossas realidades para nos encontrarmos e escrever, cada encontro um conto de um presente de ouro. 

Teve o capítulo onde tomamos banho de Lua, vestidos de nada, enquanto ela deixava no ar um  rastro dos perfumes que usava, L’Insolente, Amarige, outros que nem sei, porque não comprei, foi ela que escolheu para me agradar e deixar grudado no meu corpo quando fosse embora. 

 

Uma vez espargiu um deles num cartão e nele escreveu: “para que te lembres sempre de que fui tua, tantas vezes nua, à luz da Lua, nas festas só nossas e das estrelas, onde morríamos de prazer e renascíamos em muitos beijos, de desejos e de tudo de bom, ao som das ondas quebrando lá na beira da praia".

 

Lembro da vez assim mesmo, irresponsáveis e afoitos, quando aproveitamos o som de um bolero que vinha de longe e dançamos na beira dessa praia, com a espuma das ondas beijando nossos pés.

 

Maria tinha medo que o mundo soubesse que ela ainda podia amar e estava amando correspondida, sendo feliz. “Que se dane o mundo, Maria…! O mundo nem ao menos chorou contigo, de verdade, pelo tamanho da tua dor, na perda do teu primeiro amor…!” — “Amor, meu amor, é o amor com que te amo, então é esse o meu primeiro amor…” E me fazia sentir feliz e como não ser? A gente descobre e se descobre quando nem vontade tinha mais de espiar lá fora, não via beleza nas coisas bonitas de qualquer lugar. Não tinha nenhuma saudade junta para sentir, por conta de tanto tempo procurando todo o tempo que deitamos fora. 

 

Foi nesse tempo que encontrei Maria. “E amanhã, meu amor?” – uma vez me perguntou… “ Amanhã, Maria, não chegou ainda, nem é de madrugada, ainda temos muita noite para abraçar e sentir o teu coração colado no meu, unidos pelo teu cheiro, pelo nosso suor. Na verdade, gente nunca sabe quando nasce um amor e seguramente não deveria esquecer quando ele acabasse. Mas não foi assim; um dia, Maria foi embora e não disse se voltava. E nunca mais voltou.

 

Era assim que estava escrito e foi assim que nos deixamos, como um livro que fechamos com carinho, depois que lemos  e gostamos muito, desejando que ele nunca chegasse ao fim. Foi em Maria que conheci um anjo, senti a sua essência na minha vida e mesmo depois que ela foi embora, ainda chego a sentir, como  agora, nessa hora que ela ainda está comigo, vez por outra, com um manto perfumado sobre essas lembranças, a sussurrar meu nome e me chamar “meu amado, sinto saudades de você, por toda a eternidade…”

A Sinfonia das Interpretações

por A. Capibaribe Neto

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Composição musical para orquestra, em forma de sonata, dividida em três ou quatro partes (alegro, andante, scherzo ou minueto e final ou rondó). Toada harmoniosa; harmonia ou melodia: uma sinfonia de cigarras. Concerto de instrumentos: sinfonia clássica. Parte ou trecho musical que antecede uma ópera.

 

Para os gregos antigos, a consonância (harmonia perfeita) só seria alcançada por intervalos de oitava, quinta e quarta juntas. No século XV, designação de qualquer composição para um conjunto de instrumentos. Fico com a última acepção para usar no meu intento. 

 

Somos, desafortunadamente, um povo pobre de cultura, escasso, de pouca monta, de história, na sua maioria, com histórico familiar nos enxotados de Portugal pela má conduta, degredados, ladrões, assassinos, meretrizes, negros que sobreviveram nos galeões que cruzavam o Atlântico para a escravidão na terra dos índios. Alguns, raras exceções, nobres e de sangue azul, ávidos de abarrotarem seus cofres europeus com o ouro que grassava praticamente à flor da terra. Tudo tão recente, quase ontem; no máximo, semana passada, quando muito. 

 

As raizes dos degredados não apenas se aprofundaram, mas se espalharam. A prova está aí, chegaram ao planalto e de lá não pretendem arredar o pé.

 

 Outros, refestelaram-se na orla, sucursais da grande matriz onde imperam continências circunstanciais e o agito de bandeiras que já tiveram suas torcidas de desfaçatez igualmente oportunistas. Salvadores da Pátria de plantão periódico, sem ao menos mudar a tática e técnica do surrupio, afora as caras envelhecidas pelo passar do anos. Nem ao menos chegaram a lobos guarás. Velhas raposas, velhas, com os mesmos hábitos. Quem são os bons? Deixa eu ver…

 

Tá difícil. E os ruins? Ah, aqui falta espaço, vai ofender a muita gente, incomodar os que perderam padrinhos, caviar Beluga, Romanée Conti, lagostas ungidas, camarões de palmo de cauda e serviçais contritos, os Pull Bags, em tradução debochada de inglês moleque (pull de puxar e bag de saco). 

 

Música clássica? Raríssimos, até ministros mergulharam no pagode e as madames no “baixa o shortinho”… Ah, que coisa boa! Está lá no começo, no intróito dessas mal traçadas linhas; allegro,  bota alegria nisso; andante – palavra que se põe no princípio de um trecho de música para indicar que ele deve ser executado nem muito devagar nem muito depressa, ah, ah, ah!

 

 Cumpre-se à risca à medida que se apresentam os interesses e desinteresse oportuno da choldra; scherzo, que caracteriza por um ritmo acelerado e vivo e pela repetição; ora, ora! 

Pra que serve o carnaval! Covid? Que Covid, que nada! Rondó, na sonata e na sinfonia clássicas, peça brilhante que serve de movimento final, caracterizada pela repetição de uma frase musical (refrão) entre os couplets.

 

 Gente, o passado sempre foi o melhor presente: repetição? É o que se vê. Menos o lugar de esconder dólares. Já não se compõe mais sinfonias como antigamente: Wolfgang Amadeus Mozart, Sinfonia Nº 29; Ludwig van Beethoven (1770 - 1827) - Sinfonia Nº 5; Hector Berlioz (1803 -1869) Sinfonia Fantástica; Robert Schumann (1810 - 1856) - Sinfonia Nº 2; Johannes Bramhs (1833 - 1897) - Sinfonia Nº 1… 

 

Hoje é COVID-19, Ômicron (autor desconhecido; H1N1, H1N3, INFLUENZA; GRIPEZINHA… e a turma quer mais é cair na gandaia.

 Crise? A turma continua fazendo molecagem de madrugada depois da pizadeira do AUSTIN, num scherzo que não tem mais fim.

Mil Lágrimas Diferentes

por A. Capibaribe Neto

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O título já é um indicativo de que coisa boa não é. Pessoas normais choram; em público, sozinhas, na companhia de amigos, de parentes, em comemorações de aniversário, de nascimento, na solidariedade pela dor da morte; choram de saudade, na partida, na volta que acaba com essa saudade, na expectativa, na dúvida, na notícia boa, na ruim… Existem lágrimas para todos os motivos, mas sempre tem o mesmo gosto salgado, não importa a cor do olho, da pele. 

 

Existem lágrimas que rolam até os lábios que tremem de raiva incontida, com sede de vingança, de desapontamento pela traição, pela ingratidão, injustiça. Muitos já choraram essas e outras lágrimas, todas mexendo com a alma, com a emoção recôndita, com aquela pública, com razão, sem razão. 

 

Lágrimas com a história de um filme, sobre a página de um livro, uma carta, sobre um teclado ou uma tela luminosa. Lágrimas fartas, choradas sobre lenços, lençóis, travesseiros ou nas conchas de mãos aflitas, em desespero. 

 

Podia estar tergiversando sobre outras lágrimas mais fáceis como as de pequenos fingimentos, falsidades cotidianas, lágrimas de carpideiras sumidas por falta de clientes; lágrimas de viúvas alegres, outras nem tanto, só aliviadas ou por obrigação para dar satisfação por uma perda que perdeu o sentido de valer a pena de estar junto.

 

Olhando assim, todas juntas e misturadas, são muitas, são tantas e tão confusas que precisam entender seus rituais, até quando são julgadas se foram poucas ou exageradas através de gritos de desespero ou inventadas, para justificar uma herança, um direito posto ou cobrado, devido, transitado em julgado para o gáudio de bem desfrutar. 

 

Lágrimas da consciência pesada, da aliviada. Muitas, tantas; as explicadas, as sem explicação, as que suscitam dúvidas, as de mentirinha, de crocodilo ou de cobra. E cobras choram? Ah, se choram! As que falam, sussurram, cochicham, fuxicam, se divertem silvando ou balançando seus chocalhos, rabos finos.

 

Lágrimas afogadas em copos baratos, em taças de cristal, misturadas com bom vinho ou vinho barato, onde se afogam traições e muitas histórias de asas arrastadas.

 

Lágrimas de sofrimento, já disse; aquelas de alívio pelos segredos sepultadas juntos, para sempre. Lágrimas, são tantas, dariam para encher um lago grande, talvez um oceano ou apenas um jarro ou uma jarra.

 

A lágrima é a alma se confessando, reagindo, seja ao que for ou as suas razões. Um dia, faz muito, vi meu avô, bem velhinho, como devem ser os avós, já respirando pouco, alma fazendo as malas, em sua calma digna ante a iminência da última partida e eu, ali, sem entender ainda do ritual da passagem, ao lado de meu pai, vi um lágrima, só uma, escorrer pelo canto de seu olho. “Olha, pai, vovô está chorando!” E meu pai afagou minha cabeça ainda ingênua e disse em voz sussurrada: “seu avô agora está em paz…!” 

 

Lembro que não chorei porque não entendi aquela lágrima até chorar muitas outras, como algumas das quais falei, mas as piores delas foram algumas, poucas, é verdade, as lágrimas de fúria, de ódio contido, pela força da ingratidão, o peso de mesmo sofrendo injustiça, buscar forças e coragem de ser bom.

A última carta para uma amiga

por A. Capibaribe Neto

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A inspiração veio do título de um filme do Netflix. A Última Carta de Amor. Lembro que escrevi uma crônica com os velhos sintomas do romantismo que vem perdendo a graça do sofrimento de uma boa saudade ou mesmo as dores e cicatrizes daquelas sem cura. Os tempos são outros; tempos estranhos! O ritual da conquista está em coma.

 

Os gestos de um cavalheiro podem ganhar zomba dos circunstantes modernos ou o tom de mofa da turba ignara que abusa de “nadahaver” nas mensagens ou apócopes que não sabem explicar e muito menos das síncopes vulgares. Mocinhas de boa família reduziram os limites para aceitação de um grosseiro chamá-la com o toque de uma buzina estridente ou o acelerar de seu carrão cheio de silicones mecânicos. E elas aceitam com um sorriso até. Tempos estranhos! 

 

Um amigo me disse que tinha vontade de descer, puxar o aborígene pelas metade da camisa aberta, dar-lhe um tapa nos ouvidos já moucos, pelas músicas altas que impõe a quarteirões inteiros: “abaixa o shortinho…”, “mostra o peitinho” – está lá, no Instagram, com mocinhas lindas, com as suas bundas de geleia, como catálogos repetitivos. Instagram, é o nome do circo das orgias e do mau gosto que expõe crianças. Duvidam que exagero? Dê uma espiada!

 

Não sou pudico, beato ou cheio de frescura, mas sou do tempo em que definiam-se os sexos logo nas ultrassonografias e os enxovais eram azuis ou rosas. Mudou tudo, tempos estranhos. Todo mundo tem direito aos seus espaços, muito justo. Pessoas precisam ser respeitadas. 


PESSOAS, SERES HUMANOS, independente do que tem entre as pernas. RESPEITO deveria ser a bandeira, sem a necessidade de fazer uso de praticamente todo o alfabeto para designar as preferências modernas dos sexos modernos. 

 

Como se não bastasse, vem devagar a imposição da mudança gramatical do gênero. “Do you Speak ISTE?” Pois bem, a reboque, vem a falta de bons modos, educação, cavalheirismo.

 

Devia ser obrigatória a exibição de filme A Última Carta de Amor, mas careceria explicar, num pequeno introito, o que significa amor, transcendendo as abas das acepções dos dicionários, que estão lá, no Michaelis, por exemplo, em número de 15. É preciso entendê-las e respeitá-las, mas quem haverá de? Aí, conversando com essa amiga, perguntei a ela quais eram seus sonhos… “Tenho ódio a sonhos…!”

 

Prezada amiga, ontem sonhei com você e escutei ao fundo, a música Lady D’Arbanville, de Cat Stevens, composta para uma mulher, sua amada, morta. Chamava pelo seu nome, dizia o quanto lhe amava, como era linda, mas você não respirava mais. Oh, minha amiga de qualquer lugar, que pena que você não escuta minhas canções de amizade nem vai usar o vestido vermelho que você usou dançando um bolero comigo sob as luzes das estrelas. Esta é a minha última carta com todo carinho da minha amizade que agora jaz sem eco…

CAFAJESTES DEPOIS DA FESTA

por A. Capibaribe Neto

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As orgias comportamentais que se seguem ao término das atividades dentro do ambiente controlado do AUSTIN, após as quatro horas da manhã, no estacionamento da Farmácia Extra Farma, podem estar preparando, de forma crescente, a cada episódio, uma tragédia com maiores consequências.

 

Os rapazes e moças que chegam, cedo da noite, em seus carrões comportados, são educados, elegantes e exageram na beleza de seus físicos, notadamente as mocinhas de vestidos sumários e saias curtíssimas — quem não gosta? 

Lá dentro, depois de um processo de fermentação ou pasteurização em suas personalidades, voltam à avenida e, como se fossem poucas as horas curtidas naquele espaço reservado, dão vazão a alguns instintos selvagens e moleques do lado de fora. 

 

Não falam mais, gritam! Se insultam, tem um que se destaca, que grita feito um índio sioux, montado num cavalo imaginário trazido de casa. 

 

Hoje, no episódio de 14 de janeiro, acordei com um insulto muito comum dentro da turba ignara,  turba que dessa vez, expandiu seus mais desprezíveis instintos. Um sonoro “seu filho da p…!” foi direcionado por um a outro filho igual. As mocinhas se agitaram nas torcidas pelos valentões. A temperatura subiu e fiquei só na expectativa do estampido de um tiro ou o som de tapas, mesas voando ou carros arrancando feito armas no asfalto.

 

Quando os ânimos se acalmaram e o índio deixou de gritar ou fugiu no seu jumento de periferia, escutei a voz educada e elegante de uma mocinha sóbria dizer: “deixe de ser cafajeste!” 

 

Como fui premiado com essa gripe da moda, apesar de ter sido vacinado, sem mais sono, fui procurar por “cafajeste” no Google. 

A mocinha sabia a razão de estar usando o substantivo para qualificar alguém dentro naquela orgia comportamental. 

O cafajeste é uma pessoa desprezível, mau caráter, sem valor, pessoa de maus modos, vulgar, indivíduo de ínfima ou ruim condição, vagabundo, valentão, homem de ínfima condição, indivíduo sem préstimo, traidor conjugal.

 

Em Portugal, é aquele que não é estudante e que, em gíria escolar de Coimbra, se chama futrica. Cafajeste tem 9 caracteres, 4 vogais e 5 consoantes; é um substantivo masculino pejorativo, indivíduo de baixa condição social; pessoa a quem não se empresta importância. A forma correta de escrita da palavra é cafajeste, com j. A palavra cafageste, com g, está errada. O substantivo masculino cafajeste, usado com sentido depreciativo, indica principalmente uma pessoa sem caráter e de má índole, sendo sinônimo de canalha, patife, calhorda e cachorro, entre outros. Não existe feminino de cafajeste.

 

Para o dicionário informal, cafajeste é uma pessoa sem vergonha, pilantra, que gosta de se aproveitar das pessoas bobas. Segundo o dicionário Michaelis on-line, cafajeste é um sujeito indelicado ou sem finura; rude, grosseirão, cujos modos, trajes e aparência denotam seu mau gosto típico, arruaceiro; desordeiro.

 

 A mocinha disse muito bem: CAFAJESTE! Aliás, vamos premiar como cafajestes os baderneiros que não respeitam as dezenas de famílias dos condomínios elegantes em frente, com seus gritos selvagens, seus “vai tomar não-sei-onde”, se bem que bem sabemos. Em inglês, não existe uma boa tradução para cafajeste, afora “scoundrel” que significa “canalha,” quando se inverte para o português. Em alemão, é schurke, mas invertendo, vem como vilão. Em chinês, é égún, que significa babaca. Ora, babaca, por sua vez,  é traduzido como béndán e este, significa idiota.

“MORITURI TE SALUTANTE”

por A. Capibaribe Neto

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Voltemos no tempo, coisa pouca, levando-se em conta que “tempo” é coisa vaga e, enfatize-se, e lá estava Marco Túlio Cícero, um advogado, político, escritor, orador e filósofo da gens Túlia da República Romana, eleito cônsul em 63 a.C. Era filho de Cícero, o Velho, com Élvia e pai de Cícero, o Jovem, cônsul em 30 a.C., e de Túlia, muito aborrecido com Lucius Sergius Catilina, um militar e senador da Roma Antiga, célebre por ter tentado derrubar a República Romana, e em particular o poder oligárquico.

 

Lucius Sergius, em nome de quem arrolamos todos os políticos que posam de honestos, mas com indisfarçáveis interesses escusos; nesse momento, Março Tulio tascou, em alto e bom som, à guisa de introito da sua fala (AS CATILINARIAS): “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Quam diu etiam furor iste tuus eludet?  

Quem ad finem sese effrenata iactabit audacia? Nihilne te nocturnum praesidium Palatii, nihil urbis vigiliae,nihil timor populi, nihil concursus bonorum omnium, nihil hic munitissimus habendi senatus locus, nihil horum ora vultusque moverunt?”

 

Como vós, à exceção dos amigos eruditos, não falais latim, permitimo-nos uma cancha: “Até quando, senhores desavergonhados desta casa, abusareis de nossa paciência? Por quanto tempo essa loucura zombará de vós e a desfaçatez explícita não vos cora a cara? O que presenciamos será avesso à ousadia desenfreada, sem que haja um guarda noturno de coragem a defender o palácio do povo? Noites inteiras sem dormir com medo das pessoas! Não houve consenso pelos cidadãos de bem e esse lugar não está fortalecido pelo Senado que merecíamos. O Senado de verdade não moveu a boca em nome dos necessitados, dos miseráveis. Até quando, homens sem consciência?”

 

Não havia como Marco Tulio ao menos imaginar a falta que faria um discurso duro dessa lavra, inquisidor, quase dois mil e cem anos, somados os antes e depois de Cristo. Antes, mas sem nenhuma ligação com esse passado e o presente confuso que vivemos, mesmo sem ter sido às margens folclóricas do Ipiranga, Caius Julius César, pouco antes de Marco Túlio, 100 anos antes de Cristo, já havia ousado, ameaçando "atravessar o Rubicão", que passou a significar a tomada de uma decisão que se traduziria numa perigosa empreitada. 

 

Ali, Julio Cesar, sem gritar, falou: “ALEA JACTA EST!” Se ousássemos atualizar para o que se descortina diante de nesse presente de trevas, seria como alguém — só não sabemos quem — dissesse, mesmo sem nenhuma convicção: “A SORTE ESTÁ LANÇADA” e tomara que as urnas não nos traiam quando chegar a hora. 

 

Depois do Day After, apuradas as vontades eletrônicas das pessoas esquálidas e assustadas, essas poderão dizer, quase num sussurro, pela falta forças da pouca esperança: “SALVE, PRESIDENTE (seja você quem for) MORITURI TE SALUTANT”. Salve, Vossa Excelência, seja você quem for, OS QUE VÃO MORRER TE SAÚDAM…!

POR NOSSA CULPA, MÁXIMA CULPA

por A. Capibaribe Neto

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Já é Ano Novo. Muita gente está cansada por conta da expectativa frustrada. As festas tiveram pouca graça, o glamour ficou devendo. Não, não, por favor, não interpretem mal. Teve e ainda tem a pandemia e agora, com uma pitada das N qualquer coisa das gripes modernas.

 

Estou de ressaca de vacinas; as três desse cretino da Covid, que não convenceu e mais essa a nova influenza A (H1N1), mais conhecida como gripe suína, que se propagou na primavera de 2009, é uma gripe sem precedentes e provocada por um novo tipo de vírus, ou seja a população não tem nenhuma imunidade contra ela. E eu, mesmo depois de vacinado, fui comer carne de porco no Out Back. Voltei pra casa e dou de cara que Israel já fala numa quarta dose; mais reforço para essa covid teimosa, cheia de fricotes e codinomes.

 

Ômicron — que é o nome da décima quinta letra do alfabeto grego (ο, Ο), correspondente ao O do alfabeto latino. Ninguém aguenta mais o entra-e-saúde tantos vírus. Continuamos de máscaras, inseguros, com medo e ameaçados.

 

“Não se pode baixar a guarda…” eles dizem e esses eles são muitos, falam muitas línguas. As mazelas humanas se vulgarizaram e se misturaram, apesar das fronteiras que abrem e fecham. Viajar deixou de ser uma alegria crescente e passou a ser um pesadelo constante. Eu precisaria ser muito cínico e fazer de conta que nada aconteceu no ano passado e não tem nem 24 horas que já é amanhã na Austrália, na Ásia, lá onde o Sol nasce mais cedo e tudo continua o mesmo. Queria mesmo poder abraçar, beijar, beijar muito, beber todas, principalmente bons vinhos e bom sakê.

 

Nem amigos podem confraternizar, ficarem ébrios, irresponsáveis, mesmo só na passagem de um dia que ligo se fundiu com o que chegou apressado,  capenga. É fácil dizer Feliz Ano Novo, mas puxa, convenhamos, com que cara? Não se trata de ser pessimista, desmancha prazeres, não. Com todo esse passado que já carrego nas costas e pelo corpo inteiro, nem consigo rir. Não consigo nada. Não é que tenha perdido a esperança, tenha ficado sem graça, não é isso, por favor.

Aos que estão, como eu, sobreviventes, que sejamos mais tolerantes e menos, muito menos radicais, azedos, cheios de razão e menos culpados. Levantem as mãos, digam “presente!” — estamos vivos nesse mundo que agoniza, por nossa culpa, nossa máxima culpa.

A MOÇA DO PERFUME GOSTOSO

por A. Capibaribe Neto

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Depois de quase dezesseis horas do trecho São Paulo–Dubai, em um voo que parecia não acabar mais, a longa espera de oito horas até o novo embarque até Saigon. Já era esperado; a Terra é enorme e cheia de distâncias, mas era isso mesmo. 

 

Chamo minhas viagens de fugas; não de culpas ou de dores de amores; fugas da mesmice ou do peso de arrastar as malas de um enorme passado que fui acumulando sem me dar conta. Já pensei em desistir de escrever sobre amores, paixões, passou logo. Às vezes, no meio da noite ou cuidando de madrugadas cumpridas, valho-me de um bloco de anotações e escrevo frases que pulam da cabeça ou retalhos de diálogos em filmes ou de letras de músicas que parecem ter sido escritas para mim e servem de inspiração para esse vício de valer-me de rectos onde me encontro e me perco.

 

Finalmente, a chamada para o embarque com destino a Saigon. Existem dois lugares que dou preferência na cabine: corredor, porque levanto para esticar as pernas sem incomodar a ninguém ou janela, por conta das paisagens acima das nuvens, de dia ou de noite.

 

 Dessa vez, peguei a janela. Embarquei entre os primeiros chamados e me acomodei. Torci para a poltrona do meio ficasse desocupada. Já estava animado, quando uma moça veio devagar, conferindo sua poltrona e era ali o seu lugar. Sentou-se quieta, ficou calada e não fez contato visual. 

 

Não sou de puxar conversa, então estaríamos de bom convívio por quase dez horas, mas quando o piloto deu manche de potência total para o enorme A-380 arrancasse feliz para levantar do chão aqueles milhares de toneladas, a moça retesou-se na poltrona e apertou meu braço com força. Assim que a sensação da gravidade puxando para baixo estabilizou o avião na subida, ela aliviou meu braço, olhou-me encabulada e disse, quase num sussurro: “sorry, sorry!” — “it’s ok…”, foi tudo o que respondi. 

 

Ela estava visivelmente incomodada na poltrona do meio, entre mim e uma senhora de porte avantajado, no corredor. Depois de quase duas horas de voo, ela retirou um iPad na mochila, ligou-o e em seguida, vi, pelo canto dos olhos, diversas imagens encherem a tela, mas virei-me para o vazio escuro do céu lá fora e fiquei-me lá. Pouco depois, percebi que ela estava chorando. Esperei um pouco, toquei no braço dela e arrisquei: “are you ok?” Ela aquiesceu com a cabeça, tirou um lencinho perfumado da bolsa, enxugou os olhos, o nariz e me olhou nos olhos pela primeira vez. 

 

Apesar da expressão triste, tinha um rosto bonito, olhos castanhos claros e boca bem desenhada. “I’m sorry for your arm…”; — no problem, it’s ok” — em seguida, foi a minha vez: “where are you from?” Também era brasileira, descendente de italianos e morava numa cidade do interior do Paraná. Estava viajando sozinha, depois de uma separação doída e apostou o que tinha numa experiência de emprego, em Kuala Lumpur, na Malásia.

 

 Escutei a história sem fazer perguntas, sem curiosidade. Depois de servido o jantar, recolhidas as bandejas e as duas garrafinhas de vinho que ela bebeu, apagaram-se as luzes, ela reclinou a poltrona, suspirou fundo e fechou os olhos. Não demorou muito, o efeito do vinho fê-la pender para o meu lado. Consciente, semi-consciente ou não, aninhou-se no meu ombro e o perfume da cabeleira sedosa misturou-se com a respiração com o aroma marcante do vinho tinto e antes de adormecer, perguntou baixinho: “posso ficar aqui?” Quase não me mexi para não tirá-la daquele quase abraço.

 

Nem vi o resto do voo vencer aquela lonjura toda até Saigon, capital do Vietnam. Seu nome? Não perguntei e não disse o meu. 

 

Não tenho ideia de como fiquei nas lembranças dela, mas ela ainda ficou comigo na minha roupa até o hotel, como a moça do perfume gostoso.

Para uma colega de Fotografia 

por A. Capibaribe Neto

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Amor — é um substantivo masculino, tem como primeira acepção um sentimento que leva uma pessoa a desejar o que se lhe afigura belo, digno, grandioso; grande afeição que une uma pessoa à outra ou a uma coisa, e que, quando de natureza seletiva e eletiva, é frequentemente acompanhada pela amizade e por afetos positivos, como a solicitude, a ternura, o zelo; é também um sentimento ardoroso ou passional de uma pessoa por outra, que se manifesta em forma de atração física e não implica, necessariamente o empenho pessoal recíproco; que tem por base o desejo sexual; pode definir uma aventura, um caso, um namoro, um ato sexual, um sentimento efêmero, inconsequente, um capricho, tendência ou instinto que resulta em atração física e natural, apego a coisas ou objetos inanimados e ideias que proporcionem prazer; entusiasmo e paixão — mas PAIXÃO, apesar de ser definida no mesmo dicionário como substantivo feminino, traz, como acepções; predileção, amor tão intenso que ofuscam a razão; vício incontrolável, dominador — O “amor doentio”, capaz de perseguir, sufocar, chegar a extremos, ser manchete policial pela sua forma violenta de expressar o inconcebível, o inaceitável: a posse! 

 

É definida também como disposição favorável ou contrária à alguma coisa, que cega e impede a razão, como o fanatismo: “certas religiões desenvolvem em seus seguidores uma enorme paixão” e hoje, se vê nas defesas radicais das escolhas políticas, que não aceitam as escolhas diferentes da sua. 

A paixão pode definir o absurdo, radicalismo, mas aí, essas definições não devem estar na mesma ágora onde se pretende filosofar sobre o amor.

 

O introito que enseja o tema — AMOR & PAIXÃO — pode ser extenso, prolixo, mas faz sentido para o cronista, useiro em buscar seu latíbulo, aceito como morada dos deuses, para tergiversar campeiro, sem dar explicações aos curiosos, mas que não entendem entrelinhas. 

 

As imagens que ilustram este texto são de autoria de uma mulher-exemplo de amor e sadia paixão. Amor, pelas escolhas que fez na vida e paixão pela forma como escolhe suas paisagens e as armazena nos pensamentos, nas memórias eletrônicas de sua fiel câmera e as compartilha, evidenciando sua sensibilidade e inspiração através delas. 

Vejo-a, com alguma frequência, esbanjando sorrisos de felicidade, aos lado dos filhos, testemunhando nasceres e pores de sol, lusco-fuscos únicos, florestas, paisagens do mundo, relegadas pelas escolhas apenas perfumadas dos que jamais provaram do atrevimento de desbravar ou seguir bons rastros mundo afora.

 

 Amante da vida, dos sorrisos dos filhos, dos lugares que não carecem de louças Noritake ou talheres Christofle Malmaison 130, porque as montanhas, os campos nevados, os arredores das pirâmides, perdem a importância para as escolhas de seus olhos pelos melhores ângulos, melhores luzes. 

 

Essa fotógrafa pouco sabe da minha admiração e respeito por ela. Acompanho-a em silêncio, sem me manifestar, muito menos dizendo apenas “Linda!”, para suas fotografias ou dela mesma, quando se confunde com a beleza do lugar. Já vi-a, em registro “en passant”, dizendo “sim” para o companheiro de sorte que teve a dita de encontrar sua melhor escolha.

 

 Que homem, ter encontrado e seguir fiel ao lado de uma mulher cujo sorriso transcende aqueles de selfies sem emoção, que o chama de “meu amor” que lhe segura a mão com a força de uma paixão sem hora para acabar! Você, minha elegante, sensível e com extremado bom gosto, sem afetação, e, para mim, a síntese que bem exprime o que seja AMOR pelo melhor da vida e PAIXÃO pelo melhor da serenidade desse mundo por aí. 

 

Sou seu fã, minha senhora rica de tudo, descobridora da felicidade nos lugares únicos onde deixa seus rastros e o ar da sua graça! Para A., com respeito e admiração, seu colega de lentes, de objetivas e dessas escolhas, sem Prada, Gucci, YSL, por perto.

O MEA CULPA DA FORÇA DO HABITO

por A. Capibaribe Neto

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Quando um machucado físico restringiu mais ainda o espaço já pequeno pelas imposições desse longo contexto de pandemia que se repete e que parece não ter fim, voltei para as molduras minhas das janelas, madrugada adentro. As últimas madrugadas tem sido silenciosas, mas desses retângulos cúmplices, posso contemplar estrelas e luas, flores simples que plantei na varanda e uma, essa especial, a Flor do Deserto,  que ainda não me deu o ar da sua graça.

 

 Nesses passeios silenciosos por essas molduras, vejo,  aqui e ali, luzes que se acendem e depois se apagam ou outras, que varam a noite. Não lembro de ter visto ninguém picado pelo mosquito chato da insônia que também estivesse debruçado nessa vigília. Por vezes, assisti o Sol se espreguiçando devagar para assumir madrugadas plenas. Sem se dar conta, você se torna impaciente com a chatice desse nada acontecer, mas foi assim que lembrei de uma música, parte da trilha sonora do seriado “The Black List” e que mexeu com a sensibilidade do solitário e fui catá-la no Spotify: para “Force of Habit”, de Charlie Cunningham. Este texto foi inspirado em passagens da tradução da letra dela. 

 

Certas lembranças tem o dom de te puxar pra baixo e você é quase enterrado vivo. Não espere respostas para confortar suas dores ou suprir abraços para proteger do frio da alma, acalentar saudades teimosas e outras mazelas de passados impossíveis de consertar. Queiramos ou não, tornamo-nos força de hábitos acumulados, mas se ainda estamos aqui existe responsabilidade compulsória no resto do permanecer e aceitar as surpresas do momento seguinte. Aprendi que animais feridos lambem as suas feridas para curá-las e é o que tenho feito com as minhas, fazendo de paragens distantes, pelos caminhos onde deixei rastros desacompanhados, desde o deserto às neves calmas no extremo norte, perto do Polo Norte, meus curativos sem esperar por ninguém. 

 

Durante os voos compridos de muitas travessias sobre mares e montanhas que me levaram a esses destinos, passei-os com a cabeça encostada nas pequenas janelas transparentes, mas com visão privilegiadas das estrelas que nunca não mudam de lugar, por serem fiéis e comportadas, cada uma nos seus lugares no céu. 

 

Mesmo com muita imaginação, não vemos ninguém lá fora, além de fantasmas de lembranças borradas dos “para sempre” não cumpridos. Alimentar essas lembranças é perda de tempo, mas a teimosia faz parte, mesmo com aquelas no fim das escolhas erradas que não levaram a lugar nenhum. É a força do hábito que volta a insistir em outros perfumes, novos rostos, peles diferentes, os côncavos e os convexos sobre os quais a luxúria se esbalda, além outros pecados capitais. A letra da música sugere uma biografia sua não autorizada. Leva tempo até você perceber que essas situações se repetem com frequência pela força do hábito. 

 

Depois de cada “para sempre” desfeito, deixamos tomar assento passageiro outra promessa: “nunca mais…!”, esse de validade mais curta. “ Quem sabe dessa vez?”. Que nada! Aí, não resta nada além de baixar a cabeça e depois voltar a ter ímpetos de acreditar em outro “para sempre”,  pela força do hábito. Depois, advém a falsa demonstração de surpresa diante de promessas iguais ou parecidas, fazendo acreditar que “agora” será pra valer, por pura força do hábito, tão previsível! 

No fim, sinto-me apenas como testemunha desacreditada, por simples força do hábito…

ADEUS ÀS “MULHERES BONITAS”

por A. Capibaribe Neto

O absurdo das intolerâncias radicais chegam a assustar. Essa chegou agora, de fonte fidedigna, através de uma postagem do eminente professor Paulo Elpídio, na — digamos -  agora confusa do Facebook, como bem mostra réplica eletrônica. Como se não bastasse o desfraldar nervosinho de outras bandeiras oportunas, eis mais uma com nova  litiga sobre costumes. À intragável flâmula gramatical, some-se essa de condenar um elogio que por séculos fez bem ao ego feminino: elogiar a beleza de uma mulher, chamando-a de bonita!

A que ponto chegamos? Ainda bem que nos tempos áureos, pude me esbaldar com as evidências fotográficas de mulheres bonitas, muito bonitas e lindas, além de simpáticas, elegantes, charmosas, sensuais…

 

Tudo junto e misturado ou mesmo em pequenas doses, pode virar “crime”, passivo de atentado ou discriminação e consequente punição. Pude, repito, festejar a beleza de muitas dessas criaturas belíssimas e enaltecê-las em espaços assim, desde o TC Dimensão, da Tribuna do Ceará, passeando pelas colunas de Sônia Pinheiro, com as Dez Mais Elegantes, DN Gente e Zoeira, no Diário do Nordeste, escrevendo como bem me aprouvesse, falando de seus rostos beirando à beleza de Afrodite ou comparando-as a ícones vivos desse privilégio da criação do Grande Arquiteto do Universo. 

 

Chegamos ao fim, com o limite da fronteira da idiotice que criminaliza — vejam só, a beleza da mulher como a conhecemos. A ser pra valer essa bobices inominável, despeço-me da beleza de vocês, mulheres bonitas, mulheres queridas não apenas por esse dom, mas pelas qualidades da simpatia e do caráter que muitas delas encerravam, para a alegria dos olhos de quantos a admiravam nos salões, nas passarelas, nas ruas, avenidas ou vielas mais modestas, merecedoras de um virar de pescoço ou um fiu-fiu já banido.

 

Adeus, lindas, maravilhosas, bonitas, vocês serão eternas na nossa imaginação livre, nas fantasias mais ousadas. Vocês fizeram história e mesmo que quando nos impuserem penas severas, se as adjetivarmos assim nos vossos passares graciosos, haveremos de dizer em alto e bom som dentro do peito: vocês são mais que bonitas, são lindas!

DE VOLTA ÀS ESTRELAS

por A. Capibaribe Neto

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Recentemente, lembro que acordei, no meio da noite, com uma frase que me fez pegar um caderninho que trouxe do Japão e anotá-la: “a morte não permite despedidas”. Este desagradável assunto, de tanto fazer parte de um cotidiano continuado, perdeu a força dos primeiros impactos absurdos de tantas tristezas que se abateram sobre nós, mortais.

 

Assimilamos as partidas bruscas, a utilização vergonhosa dessa tragédia  pelas gangues  de vendilhões de esperanças, que pouco se lixavam ou fingiam que se importam com as dores alheias, tudo com a desculpa  de um vírus impensável. À morte ou mudança de plano nas existências terrenas de milhares e depois milhões, impôs-se-lhe um ritual perverso: sem despedidas, sem adeuses, sem choro presente, sem vela. 

 

As pessoas não gostam desse assunto, mas convenhamos, o ser humano é o único animal que tem certeza da sua finitude e faz planos como se fosse eterno. A bem da verdade, ninguém tem a menor noção do que seja essa passagem, além do processo natural que a ciência explica. Já passei por muitos perigos imediatos e de quase certeza de que havia chegado a minha hora de fazer a prestação de contas de como usei o livre arbítrio. Senti a adrenalina desses momentos e lembrei dos perigos pelos quais passei por cinta da ingenuidade irresponsável da criança que fui e não me  apercebi...

 

Poucos são os que tiveram a experiência de terem sido trazidos de volta à vida, depois de uma dessas peças que o coração prega e pára, sem aviso. Alguns falam de luzes brancas ou de um filme que mostra toda a vida. Aqueles poucos que  passaram por essa experiência, assumem  novos comportamentos, atitudes e dão mais valor a essa, digamos, segunda chance. 

 

Passei por um procedimento cirúrgico que me impôs uma sedação profunda através de químicos anestésicos. Quando acordei do sono imposto, lembrei que o desfalecer foi lento, calmo, sereno até o alheamento completo. Se tivesse continuado a dormir indefinidamente a partir desse processo, acho que estaria de bom tamanho para mim. Não vi luzes, não vi rostos, não havia uma porta ou uma caverna, apenas um nada absoluto sem dor, sem nenhuma emoção, foi como um trailer desse filme sem replay. 

 

Nascemos no infinito incomensurável, dentro do qual as estrelas brincam no campo das distâncias medidas em anos-luz, onde acredito seja onde estão as nossas primevas origens.

 

Viemos do pó que elas produzem quando se esfregam. Quem gosta de procurar respostas no compadre Google, para perguntas intrigantes e procurar sobre origens e “os sons do universo, da terra, do sol, de todas as estrelas e mundos”,  se deleitará com as suas melodias,  captadas dos confins das distâncias.

 

Somos feitos do pó das estrelas, não esqueçamos; está no Livro Sagrado. Nossa viagem, desde a origem mais remota até o presente de cada um foi muito longa. Vamos voltar ao lugar de onde viemos e todos nós, sem exceção, haveremos de nos encontrar na eternidade, para uma imensa confraternização, entre estrelas pulsantes, ao som de mundos inimagináveis e à luz de sóis fantásticos. A morte é apenas um detalhe que anestesia o nosso espírito.

Convite para um chá com um anjo 

por A. Capibaribe Neto

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A luz era incandescente e daí, mal podia vê-lo, mas sabia-o ali, sentia suas mãos no meu rosto. Anjos são assim e poucos privilegiados podem vê-los, senti-los e escutar o som de suas vozes aqui na terra. Encontrá-los não é fácil, mesmo os que são da guarda, aqueles que protegem sem se mostrar.

 

Pois bem, encontrei o meu, não que precisasse da sua proteção contra um perigo real e imediato, mas sem saber, para fazer confissões, desabafar, dizer coisas, contar histórias engraçadas, falar do meu tempo já pouco, das minhas vontades, dos meus desejos, decisões, da paisagem que quero, que me espera e ao encontro dela eu já quero ir. “Vai, agora, não! Fica mais um pouco, pra que a pressa? Conta mais histórias, manda pra mim, escreve, deixa uma carta, um bilhete, vamos tomar um chá, pra que tão cedo?” 

 

Já escutei, depois de ter sobrevivido a muitos perigos nessa vida, que tenho um anjo da guarda forte. Pelo que passei, vai ver que tenho mesmo e nem me dei conta ou não quis acreditar. Não lembro de ter tido medo, me apavorar ou medo pior, o medo de morrer; faz parte. Vai ver o anjo nem me deixou vê-lo ou se deixou ver, protegeu-me no anonimato, na surdina, com o manto de suas asas ou seu avental branco. Dizem que anjo a gente não escolhe, eles aparecem e protegem, depois somem e só voltam a aparecer onde a gente fica mais frágil, mais vulnerável.

 

 Certa vez, faz tempo, numa noite de lua cheia, o romântico fugiu de um bulício circunstante e foi buscar refúgio para acalentar as mazelas das tristezas que para elas deu espaço.

 

Existem momentos, no meio do nada, onde lembranças insistentes se juntam e se agitam no peito e os olhos se apertam e traem. As desculpas de que foi um cisco ou que os olhos estão ardendo muitas vezes não colam e aí, o jeito é buscar um canto, um sombra e esperar que a alma se aquiete. Nessa noite, nesse lugar, até a Lua no alto o protegeu com uma nuvem comprida, passando sem pressa,  para deixá-lo quieto e não exposto. 

 

De repente, caminhando sobre o cascalho que havia no lugar, passos denunciaram uma aproximação. Chegou bem perto, diante dele, puxou-lhe uma mão, colocou uma papel dentro, fechou-a e foi embora… 

 

Depois, quando o silêncio voltou a ser sentido e a lua curiosa quis saber de tudo, ele abriu a mão e desdobrou o papel: “chorei muito por um par de sapatos até que encontrei um homem que não tinha pés…” E aí, foi quando passei a me lamentar menos. Anjos escrevem, mandam recados, dizem coisas que confortam, como o anjo do céu, o da luz forte: “pra que ir embora? Ainda tem tanto tempo dentro do tempo que te cabe nessa vida! Vai, não, fica mais um pouco, seja um anjo para teu anjo Maria…” E se calou. As palavras lhe faltaram, queria sumir, desaparecer, criar asas e também voar. 

Anjos ensinam a voar ou também fazem confidências de suas dores terrenas. Anjos também podem ser de carne e osso. Sei disso, vi um, estava ali, com uma luz forte a lhe contornar o corpo como uma aura e depois de cuidar das minhas confissões, disse com um sorriso que acalmou e uma voz suave como uma brisa de fim de tarde: “vai embora, não… Vem depois tomar um chá comigo…!”

 

Anjos existem e às vezes, quando a gente está perdendo a graça e a vontade de caminhar para o depois de bem longe, eles surgem e fazem um convite para um chá aqui na terra mesmo.

Para M. que me deixou de boca aberta enquanto fazia milagres para eu sorrir de novo.

O ÚLTIMO CHORO DA SOFRÊNCIA

por A. Capibaribe Neto

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Todo conto, todo canto de toda cantiga – e aqui faço um ponto ou três pontos – pois são quase todos, falam de tristezas por que contam dos sofreres das despedidas, das idas e poucas vindas de quase nenhuma refelicidade, como se felicidade fizesse caminho de volta por inteiro.

 

Pode ir ver, pode olhar, constatar; o vaso que se quebrou pelo descuido da queda ou foi quebrado num rompante, como se vaso com flores ou sem elas tivessem culpa da raiva, do ódio, ainda que passageiros. Todo canto, todo canto, cada verso ou prosa, ditado, frase solta, o que seja; veja bem, quase todos, ou sem exceção, lamentam por despedidas – aquelas impostas, decididas, pelas descobertas das traições; sempre traição, enganação que sempre se descobre ou descobrem, nos descuidos das mentiras, nos fuxicos, quase todas, são choradas, confessadas, escritas e guardadas, quase para sempre, sem conserto, porque os apertos não param de machucar, sempre que lembrados.

Contar ou cantar o sofrer é morrer em pedaços cada vez de toda vez que canta chorando pela dor que nunca se vai.

 

Quem sabe chorar e chora profundo faz chorar, arrasta choro de quem sofreu e sofre por igual porque essas dores, essas sofrências são parecidas ou iguais nesses adeuses, nessas despedidas… “Quem fica, também fica chorando”– está na letra dessa cantiga que nunca para de chorar de dor:
“Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram, Num soluço de dor… Adeus, adeus, adeus! É como o fim de uma estrada, Cortando a encruzilhada, Ponto final de um romance de amor, Quem parte, tem os olhos rasos d'água, Ao sentir a grande mágoa, por se despedir de alguém, Quem fica, também fica chorando, Com o lenço acenando, Querendo partir também…” E por que se vai? Por que se despede? Por que diz adeus? Em cada canto, onde choram essas saudades, essas dores, essas sofrências, tem uma história contando e sendo cantada por quem sabe e sofreu também.

 

Mesmo sem conhecer ou jamais ter visto ou ouvido falar, a moça loira de vestido xadrez, pouco antes de entrar no avião, chamou a minha atenção. Seu vestido, em preto e branco, como as verdades devem ser postas, lembrava a bandeira de chegada para o grande vencedor nas corridas nas pistas. Que ironia, moça! Alguém lá em cima, resolveu usar essa bandeira apenas para dar partida numa ida que nunca iria chegar…

 

Sabia de tudo, tinha todo poder e estava ali como sempre e em todo lugar e usando do seu imensurável “livre arbítrio”, aproveitando-se do crédito universal e inquestionável de que “sabe o que faz” e licença para “escrever certo por linhas tortas”, errou na gramática, na conjugação do verbo morrer e matou a moça do cabelo louro, calou a sua voz e ao invés de calar a sofrência do mundo, calou a voz bonita da moça bonita que chorava junto de quem chorava e não sabia acalentar a sua dor. Ontem, ainda hoje e por algum tempo, a própria sofrência dos contos de seus cantos vão chorar baixinho pelo final dessa corrida onde a bandeira quadriculada serviu como manto para cobrir seu corpo na despedida derradeira. Para a moça bonita, dos cabelos louros, de voz forte com que contava tantos contos em suas cantigas de sofrência. Para Marília Mendonça, que parou de sofrer a sofrência alheia.

INTERPRETAÇÕES EQUIVOCADAS

por A. Capibaribe Neto

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Vamos começar pela vida: não somos nós que fazemos planos para a vida. É a vida, sim, que planeja TODA a nossa vida desde a criação dos tempos, muito antes de virmos ao mundo. Pode até parecer meio bobo, mas tudo o que aconteceu ou acontece, já estava planejado e escrito…


Somos a soma das nossas atitudes, das boas coisas que fizemos daquelas ruins e nessa operação tem pouca importância o saldo, porque o resultado está no peso das lembranças que nos acode, cobrando arrependimentos ou arrancando sorrisos pelos nacos de tempo onde nos sentimos felizes. Já filosofei certa feita, sobre essa sensação da dita felicidade.

 

 Ninguém faz o outro feliz; nós é que sentimos a felicidade dentro do peito e ela se espalha na alma, no espírito e resplandece na aura. É um coisa de dentro pra fora, uma sensação boa.

 

 O mais correto, quando expressada com relação a alguém, seria dizer “eu me sinto feliz com a presença de fulana ou fulano” — ou para atender às novas cobranças ou imposições, fulane. Isso vale para tristeza, para o aborrecimento. Esses e muitos outros mais se evidenciam com a nossa permissão, a nossa aquiescência. O Takotsubo, por exemplo, que é uma onda de tristeza eletromagnética anormal, é que faz já dentro de nós, com que o coração se esvazie e se contorça até parecer um cesto de pesca sem nada dentro. Aqui cabe uma reflexão, pois essa onda vem de fora, mas a sensação desse vazio é que depende de cada um daqueles que se propõem a exteriorizar seus pensamentos. Algumas vezes, assumindo raivas justificadas, acordamos no meio da noite ou madrugada e nos vemos dentro de um redemoinho e de pesadelos que fazem acordar o conjunto de eventos sem forças para pedir desculpas, perdão ou reconhecer um erro. 

 

É assim que vamos levando a vida e aceitando consequências ou deixando tudo o que vem a seguir como um castigo na prestação de contas que sempre nos é apresentada ao fim e ao cabo da existência. Presumimos indiferença ou fazemos pouco caso dessas contas, querendo aparentar humildade na aceitação dos números. São interpretações equivocadas para dentro das quais fugimos para encontrar alguma sombra que nos conforte pelos atos ou atitudes que cometemos em desafavor de outras pessoas.

O TAL DO LIVRE ARBÍTRIO 

por A. Capibaribe Neto

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Com o passar dos anos com que somos aquinhoados, uma coisa começa a ficar preocupante: temos cada vez mais passado que futuro. Pode até ser filosofia de pouco preço, mas encerra uma verdade. Nos áureos – entenda-se como sinônimo, pela 9ª acepção para época de acontecimentos felizes, nesse caso, da infância, adolescência e juventude, os sonhos podiam se distanciar das dificuldades de qualquer presente experimentado. Havia um futuro aguardando ou pressupostamente assegurado. Ledo engano!

 

De repente, como na série “Missa da Meia Noite”, em um dos últimos momentos, o que se pretende explicar sobre o que acontece quando morremos. Assunto que ninguém gosta de encarar. Vemos, hodiernamente, com alguma frequência, exibição de pessoas que já passam de um século, com especial lucidez e mobilidade desassistida, mas viram notícia, são expostos como uma atração desse excerto da ordem natural da existência humana. Enfim, essas pessoas, principalmente elas, têm uma coleção fabulosa de passados; entenda-se o plural como forra de assumir um monte de histórias dentro desse contexto de vida única.

 

Quantas lembranças! Quantas histórias! Quantas acepções inquestionáveis para relatos “no tempo de…!” Mas e futuro? Mais um dia? Uma semana, mês? Mesmo para os septuagenários, são tristes essas notícias das partidas de amigos ou parentes. Desculpem a abordagem preliminar. O foco é o que fizemos da vida, o que está na escrita impossível de falsificar, da contabilidade com que nos apresentaremos diante do Grande Arquiteto do Universo, para responder às suas divinas interpelações. Não para o castigo nos infernos ou as festas monótonas entre anjos e querubins pululando de nuvem em nuvem. O Deus, como para Baruch de Espinoza e Einstein, não castiga. Escuta.

 

Afinal de contas, para que Ele concedeu o tal “Livre Arbítrio”? E aí, vai reclamar ou condenar o que deu de mão beijada e abençoada? Peço humilde perdão aos radicais ortodoxos intransigentes, mas não consigo ver em Deus essa cobrança ou essas sentenças rigorosas de padecer num lugar de desconfortável calor exorbitantes, mas com nuances de orgia.

 

Retomando… O futuro acumulado e constante da escrita compulsória da nossa vida, não aceita rasuras. Ninguém engana a quem tudo sabe. Essa escrita, essa contabilidade, onde são lançados os débitos e os créditos, está diante do espelho, quando a pessoa se olha, olho no olho depois de um mal feito, uma abençoada sem-vergonhice, uma mentira deslavada, ou uma confissão de mea culpa, está no plano de conta sem muitos códigos.

 

Fica tudo escrito, preto no branco e o saldo… bem o saldo não serve de nada, seja positivo ou negativo. Imagino o criador olhando para a escrita de cada um, ora sorrindo, ora balançando a cabeça, desapontado e sem jogar na cara de nenhum filho, porque cada um sabe onde abusou do tal livre arbítrio.

A ETERNIDADE DE HOJE

por A. Capibaribe Neto

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Onde estão as “lindas mulheres” do tempo de Uma Linda mulher? A Julia (Vivian Ward) Roberts - Vivian Ward - 1990), deve permanecer como na estreia do filme guardada com o Richard Gere que se conquistou para conquista-la.

 

Richard e Júlia devem ser vistos e curtidos naquela história, naquele tempo, naqueles frames divertidos, como os friends de Friends, reprisados incontáveis vezes sem perder a graça. Rachel, Ross, Monica, Ross, Phoebe, Joey; cada um recebendo, 2,4 milhões de dólares da HBO para uma tomada de cena que durou duas horas, só para reunir o elenco depois da modesta estreia em 1994 e depois, de despedir-se do público em 2004, permanecendo até hoje, 25 anos passados e de certa forma atualizado na preferência de muito público mundo afora. Nas telas onde continuam vivas e curtidas, essas personagem permanecem lindas e alheias ao mesmo tempo que foi passando sem privilégios para seu público, que envelheceu em três implacáveis décadas.

 

Quantas “ Lindas Mulheres”, mesmo sem a profissão de Vivian, que fez Edward render-se aos seus encantos, não foram vítimas da passagem do tempo? “É isso mesmo!” – ora exclamareis para minimizar essa vã filosofia. Fui passear nas “postagens” curtas do Instagram, onde mulheres lindas, elegantes, cheias de charme, são misturadas, digamos assim, sem discriminação ou censura, às mocinhas que evidenciam seus talentos em repetidas, explícitas e insinuantes danças de bundas (não sejamos clínicos para torcer o nariz para o termo) que não deixam nada para a imaginação do que insinuam. “Meu corpo, minhas regras” e nem venham com censura porque a lei é rigorosa, pelo menos com a liberdade do rebolar.

 

A “Linda Mulher” e os “Friends”, usados aqui só para ilustrar essa eternidade para poucos, foram e continuam sendo únicos e impossíveis de imitar. Os rostos lindos e maravilhosos, “polidos” e “lustrados” com filtros mágicos de aplicativos oportunos, fazem a festa, tem  e merecem seus respectivos públicos. O remexer insinuante e o rebolar que remete a uma prática sexual de livre escolha dos parceiros que se exibem sem pudor, haverá de fazer a festa de um público cada vez maior e fiel. Milhares e até milhões de seguidores são o termômetro desse sucesso e preferência.

 

No vasto elenco, que vai da elegância e classe de poucas influencers às mocinhas, muito mais lindas que a Vívian (Julia Roberts) e charmosas que a Rachel (Jennifer Aniston) – diga-se de passagem, que vem e vão naquela plataforma, a “eternidade” para ficar marcada nas lembranças, é muito volátil. Os rebolados das insinuações explícitas tem prazo de validade, é cansativo e exige renovação quase diária. As roupas coladas que mostram até o micro relevo de uma mancha de pele, contornos, volumes, divisões na superfície de algumas geografias, são divertidas - não sejamos falsos.

 

Os nudes do “privado” podem chegar ao exagero de um pedido do tipo “manda uma foto do teu umbigo”… pelo lado de dentro, mas nada disso tem a força saudosista de uma Julia(Vívian) Roberts ou a graça e a beleza de uma Jennifer (Rachel) Aniston; a eternidade delas ainda vai durar muito.

Um para sempre com novo dono

por A. Capibaribe Neto

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Foi antes da pandemia, a Etna ainda estava funcionando; diante do caixa, fechando a conta, a moça, acompanhada de um homem, pareceu-lhe familiar. A memória é sempre cheia de armadilhas e prega peças ou brinca de adivinhação, só para testar o que já passou com o passar dos anos, principalmente, quando existe uma grande coleção de lembranças misturadas. 

 

Quando olhou pela segunda vez, ela lhe fez um aceno tímido e ele retribui com um sorriso sem graça. “Quem é?” – perguntou-se rapidamente e voltou às compras que foi fazer. Como a imagem do rosto dela teimava em procurar foco, nitidez em meio a tantos rostos que fotografara, ao chegar em casa foi procurar nos arquivos e, dentro de uma gaveta, aqueles rastros da curiosidade que o incomodavam.

 

Era do tipo que guardava pedacinhos de papel, lencinhos deixados como lembrança e, dentro de um envelope de plástico, perfumes que compuseram suas histórias: L’Insolente, Trussardi, Amarige… Bilhetes carinhosos, cartões, deixados sobre travesseiros carinhosamente amarfanhados e isoladas notas de fios de cabelos soltos pela molecagem da fome de beijos. Especiais foram fios de cabelos dourados e castanhos – cada um de sua época, colados com durex em cartões coloridos também dormiam, respeitosamente, entre fotografias que não o deixavam esquecer que houvera um passado cheio de capítulos da sua história.

 

Aqui e ali, sentia ímpetos de tocar fogo em tudo, mas desistia e assumia carregar o peso das saudades proibidas e lembranças que perderam o sentido de continuar.

 

Quem já viveu anos demais da conta e pouco se permite continuar sonhando. Nunca, “carpe diem” se fizera tão imperioso. Cada “amanhã” era uma pretensão de luxo; “no próximo ano”, então, a ilusão de permanecer imortal. Enquanto se sentia vivo e pulsando, se sentia imortal, embora já estivesse dispensado de escolher entre um soldado de pouco trato um homem acima de deus, com letra minúscula, para o comando do país. “Que país?” – questionava-se em silêncio. 

 

De repente, uma dedicatória nas costas de uma fotografia: “para sempre tua…”, o fez lembrar, como num flash, de quem era a letra de boa caligrafia e a marca da boca que tanto havia beijado…! Virou a foto e lá estava a mulher na fila do caixa. O corte dos cabelos, uma tintura escura que mascarou o castanho perfumado, os óculos de grau, o corpo com novas formas, quase foi o bastante para esquecer e deixar pra lá. Ali estava ela… ressurgindo ao quase vivo, cores mais vivas ainda! Ah, não! Onde ficou aquele “para sempre” que lhe prometera e não cumprira? Não era para estar durando até ali, na boca daquele caixa? Ele um dia fora aquele que atendeu ao chamado “meu amorzinho”, de tantos outros diminutivos que nunca suscitaram subserviência, mas, isso sim, uma forma de cativar, prender, agrilhoar sem que tivesse percebido. O para sempre tinha prazo de validade e um dia, venceu.

 

 Ficou ali, olhando a fotografia, viu um monte de vida passar diante dos olhos. Não lembrou como tudo começara, mas seguramente não esquecera do dia em que o “para sempre” acabou. Definitivamente! Voltou-se para a imagem do instante  na fila do caixa. Tentou imaginar como teria sido  logo depois que ela saíra da loja com o companheiro. Onde estaria? Em algum lugar, seguramente, estaria usando outros diminutivos ou os mesmos, requentados,  para um novo “meu amorzinho” com outros jeitos de se encantar no seu tempo de acreditar naquele “para sempre” que um dia fora dele.

O Infarto nas redes eletrônicas

por A. Capibaribe Neto

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As fotografias e mensagens usadas como vitrina são sempre as melhores e se não estiverem boas, com alguns toques mágicos ficam do agrado e convencem. Facebook, WhatsApp, Instagram, Messenger, só para mencionar os mais conhecidos, mas além desses, outros da mesma linha carecem de identificação.

Afinal de contas, é imperioso saber com quem se fala; ou pelo menos acreditar que a pessoa do outro lado da comunicação é e irá se tornando aquela que se acomodará na imaginação nas festas das fantasias.

 

Dos rostos bem cuidados, sorrisos ao ponto, elegância ou descontração e até mesmo o abuso do direito do “meu corpo, minhas regras”, só não se pode mostrar as areolas ou avançar nas explicitudes das intimidades. Questão de gosto, de classe, pudor, cuidado, quando a exibição é pública ou restrita. No “privado”, os limites não têm limites: é uma questão de respeito, caráter, confiança, tudo muito subjetivo. O campo é vasto e as carências dentro das restrições impostas no contexto cansativo atual se comprimem e aí, os nudes viraram a pedida. 

 

Existe uma distância muito grande entre a arte da nudez e a nudez de mau gosto, se bem que o nu –  com todas as vênias – feminino, detém a graça dos côncavos, convexos, dos bordos de defesa ou ataque; questão de inegociável preferência do lado de cá e os ângulos exagerados de selfies desfocadas. Do momento de uma ingênua “solicitação de amizade”, como se essa já estivesse pronta para um delivery e um envolvimento instantâneo, é só o tempo de digitar uma mensagem e “clic”, enviar! 

 

Entre a conveniência do virtual e  a trabalheira para consolidar o presencial, existem as distâncias e o preço da gasolina. E aí, se não der certo e uma outra “solicitação de amizade” mais atraente não se intrometer, a facilidade cruel do “bloquear” virou banalidade, frieza, deselegância, mas e daí?

 

Existe uma tabela de preço para as consequências de dados expostos e de uma confiança rápida demais, principalmente quando, de repente, “anota aí meu novo telefone…”, “pai, tá ocupado?” e a pessoa, na maior inocência, vai na onda e faz uma transferência que vai de pouca coisa a muito. E assim, das primeiras fotos do perfil ao exagero das postagens até do palito de dentes, passando pelos nudes, tráfego de imagens e informações ou confianças apressadas movidas a carências, a tempestade perfeita das desilusões está presente. 

 

O infarto das redes sociais e comércio eletrônico veio num clique, o mesmo que manda uma solicitação de amizades de prateleira, o envio de uma mensagem carregada de preconceitos, insultos, agressões, preferências, radicalismos, intolerâncias. De repente, tudo parou, por pouco mais de sete horas. O enorme paciente comunitário está em franca recuperação e fez surgir o Telegram e o Signal.

Sete horas para uma reflexão, uma faxina nas redes e a descoberta de alternativas na UTI eletrônica.

O ARFAR DA MULHER PERFEITA

por A. Capibaribe Neto

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Linda, linda, não era. Bonitinha seria pouco e passável, segundo o dicionário, seria mais ou menos, conforme o desejo ou vontade, sem muitos defeitos, mas também sofrível, o que não era o caso. Cuidava-se, era simpática, tinha um sorriso que contagiava sem afetação.

 

Quando se arrumava para sair, deslumbrava; principalmente se usava vestido justo com decote generoso. Generoso porque podia, porque os seios rosados permitiam e bem se acomodavam. Disso ele tinha ciúmes, principalmente quando ela suspirava fundo. Hipnotizavam! Quando ela queria fazer-lhe raiva ou provocar os circunstantes, aí é que suspirava. Um espetáculo, aquele subir e descer lento, sincronizado, harmonioso, com leves pitadas de sensualidade orquestrada.

 

Quando à mesa grande, de muitos lugares e farta de de bons vinho,  os amigos do maridão, digamos assim,  quase não se continham com olhares beirando o indiscreto explícito, ele apertava o braço dela – sem violência e quase num sussurro implorava: “para de respirar assim, amorzinho…!”

 

Vez por outra ela suspirava e deixava escapar uma pontinha de sorriso malicioso com o canto da boca. A idade? Ninguém queria saber, decotes bonitos, generosos, não tem idade, principalmente quando a idade parece pouca. Tinha a idade certa. Transitava bem no imaginário dos… vamos dizer, amigos do maridão. As amigas tinham inveja dela? Se tinham, não demonstravam, não passavam recibo.

 

Tinha um sonho: um BMW!  Um dia, durante um jantar onde as máscaras foram dispensadas, dentre os convidados, coincidentemente, um fulano que abriu uma concessionária da marca. Coincidentemente, ele ficou sabendo daquele sonho e falou dos novos modelos, prometeu descontos incríveis. Coincidentemente, ela arfou de alegria nervosa. Coincidentemente o maridão viu. Coincidentemente adiantou-se e comprou um para ela.

 

E agora, feliz da vida, parece uma paisagem ambulante, desfilando pelos points, com um decote ainda maior, arfando sem parar, de felicidade.

Uma Cascata Dourada Sumindo Devagar

por A. Capibaribe Neto

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A beleza especial do rosto retangular, realçada pela cabeleira farta, remetia à visão de uma cascata dourada, que me trouxe à lembrança querida o amor interrompido. Foi coisa do destino virtual, mesmo.

 

Num lampejo de inspiração, projetei no rosto desconhecido o rosto que dormia comigo e eu acordava mais cedo para contemplá-lo, embevecido, o último ressonar e o arfar perfumado do colo sobre o qual adormeci. Foram os cabelos que me encantaram. Transformei a imagem do rosto num desenho, através de um desses aplicativos que substituem as paletas e os pincéis.

 

Não sou de me oferecer para ser amigo de estranhos por conta da minha timidez natural. Levar um fora, ser rejeitado faz parte desse espaço interneteano, mas não deixa de ser constrangedor e o receio de um bloqueio me incomoda. Afoitei-me e me enxeri, mandando para a dona do rosto o resultado da minha obra. A receptividade foi quase nenhuma, beirou a indiferença, mas sem os matizes da indelicadeza.

 

Para minha surpresa, a dona do rosto me entreabriu a porta da simpatia e logo estávamos trocando mensagens, curiosidades de invasão de privacidade, até dizer que o meu arroubo de artista devera-se à sua cabeleira cacheada. Trocamos experiências de vida até a confissão de que a minha busca, dentro do quadrilátero luminoso era por uma boa amizade. Algumas experiências coincidentes e outras, com mágoas parecidas, nos aproximaram.

 

Um dia, depois de muitos dias passados, ousei: “vou até aí, cumprimentar-lhe pessoalmente…”. A incredulidade natural dela aguçou a vontade de cumprir o que havia afirmado. Quando voltamos a nos falar, eu estava no aeroporto, prestes a embarcar. Do aeroporto, fui direto a um hotel. Levei na bagagem uma despretensiosa garrafa de vinho e duas taças de cristal. Não sonhei ou fantasiei com muito ou alimentei expectativas atrevidas. Um olhar no olho, um aperto de mão, um beijo no rosto e um abraço simples estariam de bom tamanho.

 

Por mais alto que seja o nível, a inconteste lisura e firmeza de caráter, as bagagens de comportamento e elevado crédito dos envolvidos, não implicam na compactuaçao diplomática das diferenças, crenças e visões dos que se encontram pela primeira vez, pelo contrário, ao invés da harmonia, pode descambar para arestas incontornáveis. E foi assim, assim mesmo. O bom vinho não foi bom cúmplice de momentos que poderiam ter sido. Afora o olho no olho, um discreto aperto de mãos, mais nada. Afloraram mágoas, histórias tristes e coleções de injustiças contra quem experimentou a coragem de ser bom.

 

Quase na mesma pisada, voltamos ao aeroporto e ao voo seguinte. Na despedida, um abraço acanhado, olhares que não se encontraram e uma certeza: não se pode acreditar que os sonhos e as fantasias afloradas nos encontros nas telas luminosas não asseguram a consolidação das intenções. O voo de volta foi curto, mas a noite lá fora, acima das asas que cortavam o céu escuro, parecia não acabar.

 

De volta à tela, vi os cabelos se transformarem numa cascata congelada e agora eram uma moldura vazia para um rosto que aos poucos foi sumindo silenciosamente.

Maria las palabras de amor

por A. Capibaribe Neto

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Antes que se agucem as curiosidades circunstantes com perguntas sobre “de qual Maria?" ; vou logo adiantar: Maria, a minha! Aliás, dando um spoiler, Maria nem existiu de carne e osso. Assim, como não se materializou, e não morreu, não teve velório, funeral, não foi enterrada. Existiu.

Eu criei Maria para não deixar morrer o amor, a paixão, as boas lembranças de abraços e beijos. Maria personificou todas as histórias dos amores que não sobreviveram às diferenças e desgastes pelas mesmices das rotinas. Sem ofensas e sem presunção, um escritor tem os poderes de um deus, pois ele cria, inventa, vai de uma estrela a outra num piscar de olhos; muda montanhas de lugar, inventa paraísos, ressuscita quem bem entender, com o milagre da imaginação. Maria foi concebida, gerada e veio à luz no vazio de um arrependimento que, como sempre, chega atrasado. E aí, a Maria que inventei para me fazer companhia nas saudades doídas, nos hiatos onde uma solidão pesada não foi um farol, uma boia que me resgatou das ondas revoltas dos adeuses.

Quem, dentre vós, não sofreu com uma separação que não queria? Ah, tá, mas pode ter, do outro lado, o que se alegrou com o desfecho que motivou a separação ou o conformado, nas imposições legais ante o inevitável. Cada um de nós tem as suas histórias, seus segredos, conveniências e razões. Assim, Maria veio em meu socorro e me permitiu poder escrever sobre os retalhos de momentos que, infelizmente, não foram suficientes para manter a liga da relação. Somos exigentes com os nossos direitos e razões e nem nos damos conta de que na outra metade de uma convivência também existem expectativas com exigências inegociáveis. Essas separações físicas e emocionais são consensuais ou aquelas litigiosas, que não negociam nem a divisão dos pacotes de biscoitos sem glúten. Mesmo nessas, não se pode renegar a importância dos beijos ardentes, dos abraços sem fim, olhos brilhando no escuro e dos gemidos…! Ah, os gemidos! “Meu amor, minha vida, meu tudo…”

E as promessas de “para sempre, tua!” Pois bem, Maria é a melhor fotografia inspiradora para exprimir a grandeza de todos os momentos de um romântico incorrigível. Já passou-se muito tempo desde o som deselegante e raivoso da uma porta que fechei atras de mim. Essa porta foi a linha imaginária entre achar que tinha razão e uma necessidade inadiável de escolher outro caminho.

No calor das vozes amargas, acres, corrosivas, soltas no ar, as disputas cheias de argumentos, invocando razões inúteis resultou no silêncio que imperou depois. Quando voltei, já era madrugada. Abri educadamente a mesma porta e acendi a luz para uma realidade: a do vazio. Ainda havia no ar um rastro de Amarige que ela vestia quando me recebia de braços abertos toda noite. Tudo estava no lugar, menos nossas fotografias em molduras carinhosas e uma foto grande dela que ficava na entrada. Um engasgo no peito foi uma estocada forte quando entrei no quarto o silêncio estava mais forte, preenchendo a ausência pesada. Quando vi os armarios dela vazios, sentei na beirada da cama e os olhos arderam. Sobre um travesseiro, um envelope cor de rosa igual aos que ela usava para os bilhetinhos apaixonados que me escrevia. Havia uma folha resumindo a sua saída: ESPEREI POR UM ABRAÇO PARA SOBREVIVER…”


A partir daquele dia, foi Maria que se fez presente com a sua inarredável companhia, para não deixar sumirem “las palabras de amor”.